Não é por nada que as relações entre o governo Lula e as oposições andam para lá de azedas. No último dia 21, o presidente da República, Dilma Rousseff a tiracolo e ainda um bando de acólitos, discursou no Saco dos Limões, em Florianópolis. O tema era o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Não estava inaugurando nenhuma obra, nem começando. Apenas assinando um protocolo para uma obra que está somente no papel. Protocolo que bem poderia ter sido assinado na sede do governo catarinense ou mesmo no Palácio do Planalto, em seu gabinete em Brasília. Mas o governante não perde oportunidade de fazer discursos diante das massas e em todos eles acrescenta um tom azedo que deteriora cada vez mais as relações com os oposicionistas. Desta feita, discursou para os moradores do Maciço Morro da Cruz, uma área a ser urbanizada e saneada com verbas do PAC. Se sair do papel, dez comunidades que somam 23 mil pessoas serão beneficiadas.

Disse Lula em seu inflamado discurso: ?A oposição quis nos prejudicar com o fim da CPMF. Ela não foi aprovada e perdemos mais de R$ 24 bilhões no PAC da Saúde. O que eles não sabem foi que não prejudicaram a mim, mas ao povo desse País. Mas não pensam que eu vou deixar de cumprir esse programa?. Lula aproveitou para criticar também o Ministério Público. E falando dos entraves burocráticos, disse que ?a impressão é que tudo é feito para não permitir que as coisas aconteçam?.

A queixa por haver perdido para o povo representado pelas oposições a briga da CPMF é recorrente. É sempre motivo de mais e mais azedumes. Mas tudo indica que não há razões para isto. Mesmo sem a CPMF que foi extinta no início deste ano, a receita com impostos e tributos federais, que em janeiro cresceu tanto que o secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, como se desculpando disse que foi ?atípica?, voltou a crescer em fevereiro. Nada menos que 10,2%, descontada a inflação. A receita somou R$ 48,1 bilhões, recorde no período. Rachid, desta vez, não qualificou a receita de ?atípica?, mas chegou a afirmar que o crescimento da arrecadação deve seguir a mesma proporção ao longo de todo este ano de 2008.

De falta de dinheiro, pela perda da CPMF, não pode o governo queixar-se, pois como previam os oposicionistas há e haverá dinheiro e a contribuição que era provisória, perdurou por muitos anos até que foi extinta, pode muito bem ser coberta pelo aumento da arrecadação. Tanto mais se o governo economizar nas vultuosas despesas que tem e sempre faz crescer na rubrica custeio para sustentar a enorme máquina político-burocrática que montou.

Os ataques do presidente aos que se lhe opõem repetem-se praticamente todas as semanas. Pouco antes do discurso no Saco dos Limões, de passagem pelo Paraná, ele disse que taxar o PAC de eleitoreiro é uma ?cretinice verbal?. Referia-se aos discursos dos líderes oposicionistas contra a liberação de recursos em ano e período eleitoral, o que no dizer do próprio ministro presidente do Tribunal Superior Eleitoral, é inconstitucional.

Mas, no dizer do presidente, ?As coisas estão como Deus gosta. As coisas estão arrumadas?. Mas cada dia mais azedas e prova disto é o entrevero que acaba de estourar do dossiê sobre as despesas com cartões de crédito corporativo e contas B no governo FHC, envolvendo o ex-presidente e sua esposa. Um tiro que saiu pela culatra, pois FHC, em carta lida no plenário do Senado pelo líder do PSDB, Arthur Virgílio, autorizou e até pediu que suas contas e de sua esposa sejam esmiuçadas. Se forem, as de Lula e da dona Marisa terão também de vir a lume. E a comissão parlamentar mista de inquérito dos cartões corporativos já exige a auditiva da ?mãe do PAC?, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. A coisa azedou.