Em um depoimento de quase duas horas na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Compra de Votos, o secretário municipal do governo de Uberaba (MG), José Luís Alves, afirmou ter sacado, no Banco Rural, R$ 200 mil na conta da agência de publicidade SMP&B, pertencente ao empresário Marcos Valério. Valério depôs que os saques foram maiores, no total de R$ 1 milhão por Valério.

De acordo com Alves, R$ 200 mil foram entregues ao atual prefeito de Uberada e ministro dos Transportes entre 2003 e 2004, Anderson Adauto, para financiamento de campanha eleitoral.

"Fui apenas um mensageiro. Esse dinheiro foi utilizado para o pagamento de dívidas da campanha do Adauto para deputado federal, em 2002", justificou José Luís Alves, que foi chefe de gabinete do então ministro na pasta dos Transportes. "Estive no Banco Rural cinco vezes para fazer o saque dos R$ 200 mil. Peguei sempre o dinheiro com um funcionário do banco chamado Renato. Tive apenas um encontro com a Simone Vasconcelos – gerente da SMP&B ? no hall de um hotel para receber as instruções."

Integrantes da CPMI da Compra de Votos identificaram diversas inconsistências no depoimento de José Luís Alves. A principal diz respeito ao número de vezes que Alves foi ao Banco Rural e ao total de saques feitos por ele.

A deputada Zulaiê Cobra (PSDB-SP) afirma que a lista de visitantes do Banco Rural registra sete entradas do secretário municipal de Uberaba. Questionado, Alves reafirmou que foi apenas cinco vezes ao banco. Outro ponto destacado por Zulaiê Cobra foi o número de chamadas da SMP&B para o telefone do ex-chefe de gabinete no Ministério dos Transportes.

Segundo ela, os documentos referentes à quebra de sigilo telefônico da SMP&B, apontam 17 chamadas. Alves disse seriam telefonemas para marcar encontros, pois tanto Marcos Valério quanto o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, se encontraram com o ministro Anderson Adauto. Foram até cinco encontros em 2003, disse Alves.

Zulaiê afirmou que "esse número, 17, coincide com o número de saques que totalizaram a retirada de R$ 1 milhão. Acredito que alguém da SMP&B telefonava para o José Luís toda as vezes que o dinheiro estava disponível".

Alves alega que a diferença no valor dos saques (entre R$ 200 mil e R$ 1 milhão) pode indicar que houve outros sacadores, ainda não identificados, e que os saques estão sendo atribuídos a ele, Alves, para esconder a identidade dessas pessoas.

Zulaiê disse que o irmão de Anderson Adauto, Edson Almeida, também pode ter sacado recursos das contas da SMP&B, com a orientação de Alves. "Na lista entregue por Marcos Valério, o nome desse Edson aparece abaixo do nome do José Luís Alves como pessoa também autorizada a sacar."

Ao final do depoimento, os deputados João Correia (PMDB-AC) e Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) defenderam a convocação de Anderson Adauto e do irmão dele, Edson Almeida, e ficaram de apresentar requerimentos nesse sentido.