Seguindo uma determinação judicial, a carceragem da Delegacia de Furtos e Roubos (DFR) de Curitiba, que fica no Jardim Botânico, foi desativada nesta segunda-feira (23). A Tribuna do Paraná obteve, com exclusividade, a confirmação da desativação do espaço que era destinado a oito pessoas e chegou a abrigar mais de 70 presos. Apesar disso, o problema só mudou de endereço porque, a partir de agora, os suspeitos que forem detidos pelos policiais da DFR vão ser encaminhados a outras unidades policiais.

Essa decisão, expedida pela 2ª Vara da Fazenda Pública de Curitiba, atendendo a um pedido do Ministério Público do Paraná (MP-PR), tramitava desde o começo do ano e chegou até a ser imposta multa para o caso de descumprimento. O motivo da interdição, conforme a ordem judicial, era o problema de superlotação, falta de ventilação e luz solar. Na época da decisão, 63 homens ocupavam o espaço que caberia, no máximo, dez.

A desativação, porém, só aconteceu por conta da ordem judicial, pois o governo do Paraná entrou com recurso para evitar que fosse impedido de manter os presos na DFR. O delegado Matheus Laiola, que comanda a especializada, considerou que a delegacia sem presos é o ideal para que o trabalho seja feito da melhor forma possível, mas preferiu não tecer mais comentários sobre a situação.

Conforme apurou a Tribuna do Paraná, a transferência dos presos se deu em três etapas e começou em fevereiro. Aos poucos, os detentos foram realocados a partir de vagas abertas no Sistema Prisional, isso porque a decisão deixava claro que até a próxima quarta-feira (25), a remoção deveria ser concluída.

Na manhã desta segunda-feira, o espaço era vistoriado e passava por limpeza. Na carceragem, que tinha oito camas de concreto, divididas em três celas, o único benefício que os presos tinham era o de assistir TV e dividir um chuveiro quente. Como na maioria do tempo o local ficava muito acima da capacidade, as grades das celas permaneciam abertas e os presos dividiam o mesmo espaço, ocupando também a área de convivência, que é um pouco maior.

A intenção dos policiais da DFR é a de que a carceragem seja transformada em cartório. “Teríamos mais espaço para trabalhar”, explicou Matheus Laiola. Essa possibilidade, porém, ainda deve ser avaliada com base no que a Justiça definir sobre o recurso feito pelo governo. Há possibilidade de que a carceragem seja ativada novamente nos próximos meses, assim como aconteceu em 2014, quando a DFR foi interditada e logo depois voltou a receber presos.

Transferindo o problema

O delegado-chefe da Divisão de Crimes Contra o Patrimônio (DCCP), Miguel Stadler, ponderou que a desativação, embora seja positiva, também é vista com preocupação. “De um lado, tem um ponto favorável à polícia e população, já que a DFR fica numa área residencial, entretanto, isso também vem a acarretar a sobrecarga em outras unidades policiais, uma vez que as prisões continuam e o nosso trabalho continua”.

No caso da delegacia do Jardim Botânico, todos presos pelos policiais da DFR a partir de agora vão ser transferidos para a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos (DFRV), que fica na Vila Izabel. “Com isso, certamente vai sobrecarregar lá. Precisamos encontrar um limite para que isso ocorra, uma ponderação com relação a quem define essas condições. O Departamento Penitenciário (Depen) tem feito o que pode, dentro de um limite, mas isso nos gera muita preocupação”, destacou Stadler.

A Tribuna do Paraná apurou que, com a nova medida, a DFRV realmente está sobrecarregada: com capacidade para abrigar 40 presos, a unidade da Polícia Civil guarda hoje 91 detentos. “E é justamente isso que nos preocupa. Porque assim a gente tira o problema de um lugar e coloca em outro. Tenho a consciência de que essa medida vai gerar não só preocupação, mas também dificuldade nos trabalhos, ainda mais num bairro residencial”.

Vistoria

No começo do ano, a pedido da Justiça, o Conselho da Comunidade da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba vistoriou a DFR. De acordo com o órgão, além dos problemas estruturais, outras irregularidades também foram encontradas. De acordo com o relatório do conselho, entre os presos estava um que já cumpria pena na unidade há mais de um ano. Além disso, os policiais precisavam ajudar os agentes penitenciários, o que acarreta em desvio de função.

Conforme avaliação do delegado-chefe da DCCP, mesmo que agora seja vista com caráter definitivo, ainda não se sabe por quanto tempo vai durar tal determinação. “A saída seria se talvez fossem respeitados alguns limites (pelo Depen), para que a carceragem passasse a abrigar os presos por um curto período, como triagem. Sabemos que o ideal é que os presos não fiquem nas delegacias, mas isso a curto e médio prazo é muito difícil”, considerou Miguel Stadler.

https://tribunapr.uol.com.br/cacadores-de-noticias/curitiba/com-carceragens-superlotadas-delegacias-atormentam-vizinhos/