A mãe que foi filmada deixando a filha na rua, num vídeo que circulou pelas redes sociais no começo de fevereiro, vai responder por dois crimes. O inquérito foi finalizado pelos policiais do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente (Nucria), que apurou ainda que a mulher tentou intimidar a pessoa que filmou a situação e denunciou à polícia.

A situação foi filmada na esquina das ruas Visconde do Serro Frio com Olga de Araújo Espíndola, no bairro Novo Mundo, e ganhou grande repercussão depois que começou a circular nas redes sociais. As imagens mostram a menina gritando e tentando entrar no carro, pedindo para não ficar na rua, mas mesmo assim, o motorista arranca e simula que iria embora.

Conforme o delegado José Barreto, que comandou a equipe que investigou o caso, pelo menos cinco pessoas foram ouvidas para que fossem tomadas as conclusões do inquérito. “Primeiro ouvimos a mãe, que foi acompanhada de um advogado e preferiu manter-se em silêncio, embora tenha demonstrado arrependimento pelo que fez”, disse.

O que o Nucria apurou é que a mãe queria dar um castigo na filha, mas em nenhum momento iria abandonar a criança. “Ela usou essa forma, de fingir que abandonaria a menina na rua, como instrumento para fazer o castigo na filha. Por isso, entendemos que deve responder pelos crimes de tortura-castigo e ameaça”, explicou o delegado.

Além da mãe, a menina também foi ouvida e, apesar da pouca idade, confirmou aos policiais que a mãe fez o que fez para castiga-la. “Isso nos deu ainda mais respaldo para a conclusão do inquérito e também para a caracterização dos crimes que a mãe cometeu”.

Testemunha ameaçada

Outras três testemunhas foram ouvidas e pelo menos duas delas teriam presenciado a situação acontecer. Segundo a polícia, além de responder por tortura-castigo, que é um tipo de tortura, a mãe também foi indiciada por ameaça, porque teria tentado intimidar a pessoa que fez as imagens e denunciou o caso ao Nucria. “Chegamos até essa testemunha, que filmou, e ela nos contou que a mãe estava muito nervosa no momento em que a situação aconteceu. Certamente perdeu a cabeça com o que estava passando”.

O delegado disse ainda que, logo depois dos fatos, a mulher voltou à frente da casa da testemunha e a intimidou. “Ela teria voltado, mais tarde, em frente à residência da família, parou o carro e, em ponto morto, acelerou o veículo para intimidar. Por isso caracterizamos o ato como uma ameaça”, detalhou.

"Mãe vai responder por tortura, castigo e ameaça", disse delegado. Foto: Átila Alberti.
“Mãe vai responder por tortura, castigo e ameaça”, disse delegado. Foto: Átila Alberti.

Inquérito finalizado

Com toda a investigação finalizada, a Polícia Civil encaminhou o inquérito à Justiça, que deve agora analisar o que vai acontecer com a mãe. “Depende agora de o Ministério Público do Paraná (MP-PR) oferecer a denúncia e virar ação penal. Aí cabe a Justiça definir a pena que a mãe vai pegar”, explicou José Barreto, considerando que a mulher pode ficar pouco mais de oito anos presa.

A menina, conforme informou o Nucria, está com o pai desde que a situação ganhou repercussão e passou a ser investigada. “A própria mãe entendeu que era melhor deixar com o pai, para evitar problemas. Ela está bem, mas certamente vai lembrar do que aconteceu para o resto da vida”, destacou o delegado.

Alerta é válido

O que aconteceu no Novo Mundo, para o delegado, pode ser considerado como um grande alerta, não só para os pais, mas também para àquelas pessoas que testemunham fatos parecidos. “O fato de a criança ser levada ou não, não justifica o que aconteceu e da forma que foi feito. É preciso que os pais, nestes momentos críticos, saibam lidar com o estresse e pensem que eles são os adultos na situação”.

Segundo a polícia, é inegável que para educar as crianças às vezes é preciso que os pais sejam um pouco ríspidos, mas isso tudo deve ser feito com parcimônia. “Os pais precisam saber que o sofrimento provocado à criança vai gerar trauma para o resto da vida. Os adultos não podem perder a cabeça, precisam saber que o poder de castigo tem que ter limite”.

No caso das testemunhas, o delegado comentou que o que foi feito pela pessoa que denunciou a situação foi o correto. “Essa é a nossa orientação. As pessoas devem realmente filmar os fatos e encaminhar à polícia. Pois assim a gente tem prova e podemos apurar a situação o mais rápido possível”, pediu.

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