Carlos Eduardo dos Santos, 54 anos, assassino confesso da menina Rachel Genofre – encontrada morta com sinais de estupro em uma mala na rodoviária de Curitiba em 2008 – é um homem amigável e narcisista.

Para cometer seus crimes, Santos conquistava a confiança das vítimas e se passava por diversas profissões, como produtor de programa infantil, missionário religioso e até advogado de facções criminosas. Ele tem três filhos, chegou a ser casado e dopava uma das ex-companheiras para ter relações sexuais.

Este é o perfil traçado pela Polícia Civil com a retomada da investigação a partir da confirmação em setembro de que o material genético encontrado no corpo de Rachel há 11 anos é o mesmo de Santos. O suspeito estava detido desde 2017 no Presídio Sorocaba II, no interior de São Paulo, por outros crimes sexuais, além de estelionato e roubo.

Pela ficha criminal, Santos praticou ao menos cinco estupros contra crianças, todas meninas de idade entre 4 e 14 anos – perfil que se encaixa ao de Rachel. Há um sexto estupro na ficha criminal dele que a polícia ainda não sabe se foi contra uma criança ou uma pessoa adulta.

Com a admissão do assassinato de Rachel do suspeito em interrogatório e a transferência dele para Curitiba para a conclusão do inquérito, os investigadores interrogaram pessoas do convívio de Santos, incluindo ex-companheiras dele. Os indícios são de que ele sofre de transtorno de personalidade. Mas a polícia tenta provar que mesmo com o transtorno ele tem capacidade de distinguir o que é certo e errado e que esse discernimento é, inclusive, usado para atrair crianças e aplicar golpes.

“Carlos Eduardo é narcisista. Para enganar as vítimas se passava de advogado e missionário”, conta a delegada Camila Cecconello, chefe da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). No assassinato de Rachel, por exemplo, ele acompanhou a rotina da menina nos dias anteriores ao crime, além de ter se passado de produtor de televisão, mentindo que a levaria para a gravação de um programa infantil.

Rachel foi abordada pelo assassino na Preça Rui Barbosa e, em poucos minutos, acabou convencida de ir com ele. Foto: Reprodução.
Rachel foi abordada pelo assassino na Praça Rui Barbosa e, em poucos minutos, acabou convencida de ir com ele. Foto: Reprodução.

Durante a abordagem no ponto de ônibus na Praça Rui Barbosa, no Centro de Curitiba, Rachel chegou a dizer que precisava pedir autorização dos pais para ir com Santos assinar os papéis para ir à TV. Mesmo assim, em apenas 10 minutos de conversa, ele conseguiu cativar e convencer a menina a acompanhá-lo sem que os pais soubessem. Tudo graças a um discurso cordial e amigável.

Ao analisar outros cinco crimes sexuais contra crianças cometidos por Santos, a polícia detecta o mesmo comportamento: de uma pessoa agradável, que consegue a simpatia das vítimas.

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Outro ponto levantado pela investigação é que Santos costumava se aproximar de líderes religiosos nas 14 cidades pelas quais passou em São Paulo, Paraná e Santa Catarina nos anos anteriores ao assassinato. Desta forma, tinha acesso mais fácil às potenciais vítimas. “Ele se passava até de missionário para ganhar intimidade com os fiéis dentro das igrejas e aplicar golpes”, relata Camila.

Ex-companheiras

Santos teve diversas ex-companheiras ao longo dos anos e tem três filhos. “Muitas ex-companheiras disseram que ele era sedutor e não imaginavam que ele poderia fazer algo do tipo. Já outras disseram que ao ser questionado, Santos se mostrava extremamente agressivo”, conta a delegada.

Sem se identificar, uma das ex-companheiras diz que Santos a dopava e forçava relações sexuais. “Eu não tinha muito o que fazer. Ele me trancava em casa para não sair. Me ameaçava e chegou a falar que era advogado de uma facção criminosa para me dar medo”, relatou uma das mulheres à polícia.

A primeira esposa de Santos conta que ainda era criança quando engravidou dele: tinha apenas 13 anos e ele, 17 anos. Os dois se casaram e tiveram dois filhos em São Vicente, no litoral de São Paulo.

Enquanto estavam juntos, Santos convenceu a esposa a tomar conta do filho de um casal vizinho para ajudar nas contas de casa. A criança de 4 anos foi a primeira estuprada por Santos em 1985.

Em relação aos próprios filhos do assassino confesso de Rachel, no entanto, não consta nenhuma denúncia de abuso. Ele não tem mais contato com os filhos, que, segundo a ex-esposa, sentem vergonha dele.

Ficha criminal

Foto: Mellanie Anversa / Gazeta do Povo
Na ficha criminal de Carlos Eduardo dos Santos consta ao menos 29 crimes, incluindo estupros de . Foto: Mellanie Anversa / Gazeta do Povo

Na ficha criminal de Carlos Eduardo dos Santos consta ao menos 29 crimes, incluindo estupros de menores de idade, estelionatos, falsificação ideológica e um homicídio, o de Rachel. Preso desde 2017 em Sorocaba, eles cumpre 22 anos de pena, mas não por todos os crimes de sua ficha criminal. A Polícia Civil do Paraná, no entanto, ainda não sabe de quais crimes ele já foi absolvido, já que aguarda a documentação vinda da Justiça de São Paulo.

Após o estupro da primeira criança em 1985, Santos passou a vagar por diversas cidades cometendo crimes. Ele chegou a ser preso, mas em sua ficha criminal consta três fugas. Não se sabe, no entanto, se elas são fugas de presídios ou se ele não retornou de um possível regime semi aberto.

Em 2004, Santos recebeu o benefício de cumprir pena no regime semiaberto, mas não retornou ao presídio. Depois disso, passou por Criciúma e Içara, em Santa Catarina, e se mudou para Curitiba, onde assassinou Rachel Genofre em 2008.

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Rachel é o único homicídio que consta na ficha de Santos. No primeiro depoimento à polícia, ele afirmou que só a matou porque ao chegar ao local onde cometeria o estupro a menina começou a gritar. “Ele disse que não esperava que ela fosse gritar tanto, por isso, tapou a boca e nariz dela, matando a menina no ato”, explica a delegada Camila.

À polícia, Santos disse que só cometeu o ato sexual após estrangular Rachel. O laudo do Instituto Médico Legal (IML), no entanto, aponta que Rachel foi abusada enquanto estava viva.

Por determinação da Justiça de São Paulo, Santos vai permanecer em Curitiba até a conclusão do inquérito da morte de Rachel.

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