Quando começou a conversar e mandar vídeos de si mesmo nu a uma menina de 12 anos, um soldado do 12º Batalhão da Polícia Militar (BPM) sequer desconfiou de que, na verdade, não falava com ela e sim com o pai da garota. Nesta terça-feira (3), ele foi preso em flagrante depois de marcar um encontro com a menina e ser recebido por policiais civis de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC).

As investigações começaram depois que o pai da menina denunciou à Delegacia da Mulher e do Adolescente. Conforme a delegada Tathiana Guzella, o policial, que mora em São José dos Pinhais, mas trabalhava num batalhão da PM de Curitiba, já tinha cruzado com a menina outras vezes no ônibus. “No último encontro, ele intimidou a menina e teria dado a impressão de uma ameaça, para que ela pegasse o telefone dele. Ele não chegou a ameaçar, mas pôs a mão na arma, conforme o relato da menina”.

Com o contato da menina, o policial começou a conversar com ela até que pediu fotos e vídeos dela e a adolescente contou para o pai. “O pai passou a acompanhar toda a conversa. Ele (o policial) mandou fotos dele nu, mandou vídeos, e convidou a menina para sair, sequer imaginava que do outro lado estava o pai da criança”, contou a delegada.

Quando foi feita a denúncia, a Polícia Civil passou a investigar rapidamente, pois os policiais buscavam primeiro identificar se se tratava de um caso de pedofilia ou não. “Logo depois percebemos que ele sabia que a menina tinha 12 anos e que isso seria crime. Decidimos marcar um encontro com ele para verificar se realmente se tratava de um pedófilo e constatamos de que sim”.

O encontro

Sabendo que os investigadores estariam frente a frente com outro policial, a delegada preparou uma verdadeira operação para que ele fosse flagrado. “Tomamos muito cuidado para a abordagem, porque sabíamos que ele estava armado. Não queríamos gerar nenhuma bala perdida, por isso usamos todo um procedimento de segurança”, explicou.

Segundo Tathiana, quando chegou ao local do encontro, o soldado da PM foi recebido por duas equipes da Polícia Civil, uma pela frente e outra por trás, e não teve sequer como pensar em reagir. “Mas a abordagem em si demorou, porque ele pensou. Ele não sacou a arma, apenas pôs a mão nela, porque sabia que se pegasse a pistola seria alvejado”.

Conforme o relato da delegada, tomando todo o cuidado necessário, os investigadores esperaram um tempo para que o soldado da PM fosse definitivamente preso. “Ele disse que queria morrer, que a intenção dele era morrer porque sabia que o que tinha feito era crime. Foi uma situação tensa, porque demorou a essa abordagem acontecer justamente por esse conflito interno, mas a equipe de trás o jogou no chão e o desarmou”, contou.

A delegada reforçou que o policial não teve, em nenhum momento, a intenção de atirar contra os policiais. “Ele disse que não tinha intenção de ferir nenhum policial, mas que sabia que se ele pegasse na arma, seria atingido e foi nisso que ele pensou antes, se iria morrer ou não”, completou.

Na delegacia

Antes de ser encaminhado à delegacia, um superior do soldado foi chamado para que acompanhasse todo o procedimento feito pela Polícia Civil, simplesmente para evitar dúvidas. “Um tenente acompanhou 100% dos procedimentos, inclusive estava junto quando verificamos o material no celular do conduzido e assistiu aos vídeos também. O policial viu que nada foi implantado e que tudo já existia”.

O soldado da PM foi autuado por abuso sexual de menores, mas na modalidade de armazenamento de vídeo pornográfico contendo criança ou adolescente. Além disso, deve responder também por importunação ofensiva ao pudor, por ter mandado os vídeos à menina de 12 anos. “Já sobre a ameaça que teria acontecido no ônibus, não houve flagrante, mas o inquérito vai investigar isso também”.

Para o crime não coube fiança e o policial, depois de ouvido, foi encaminhado a um batalhão da PM em Curitiba, onde permanece sob custódia. Ao ser ouvido, a delegada disse que o soldado confessou e disse que sabia que a menina tinha 12 anos. “Disse que baixou os vídeos, que mandou as fotos, que realmente era ele nessas fotos e vídeos, mas disse que foi a primeira vez”, destacou a delegada, que afirmou também não ter certeza se foi ou não a primeira vez, mas que ele não tinha passagens anteriores por nenhum outro tipo de crime.

Continua preso

O soldado da PM deve passar por uma audiência de custódia, que vai definir se ele continua preso ou não. Em nota, a Polícia Militar informou que a situação aconteceu no horário de folga do policial, mas confirmou que ele segue preso. “Um procedimento será aberto para apurar os fatos e a conduta do policial. A Polícia Militar do Paraná informa que não compactua com desvios de conduta de seus integrantes e que vai adotar todas as providências necessárias respeitando o devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório”, reforça o posicionamento da corporação.