Um preso da carceragem da Central de Flagrantes, apertado de vontade para fazer xixi e sem possibilidade de ir ao banheiro, não aguentou e fez sua necessidade ali mesmo onde estava, encharcando o chão da cadeia. Foi por causa disso que os outros presos se revoltaram e iniciaram um tumulto no local, no início da tarde desta quarta-feira (07). Com gritaria e bate-grade, eles exigiam transferências, já que a cadeia está lotada e numa situação degradante, mostrada pela Tribuna esta semana.

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Conforme a Polícia Civil, no momento do tumulto havia 79 presos no local, num espaço projetado para apenas oito pessoas. Há duas celas e em uma delas o banheiro está entupido, sem possibilidade de uso. No hall de entrada para as celas há mais um amontoado de presos, algemados pelos pés, que fazem xixi no ralo de uma torneirinha que há no canto. Quando não tem como usar o ralo ou o banheiro da outra cela, fazem dentro de garrafas pet ou caixotes, o que tiver disponível.

Infectocontagiosas

Fábio Bardal, presidente do Sindicato das Classes Policiais Civis do Paraná (Sinclapol), ressaltou que a situação é nojenta e insalubre dentro da cadeia e os policiais estão trabalhando com risco de adquirir doenças infecto contagiosas graves, já que há presos com diversas doenças lá dentro. Sarna é a mais comum. “Esse preso tem que sair da audiência de custódia e ir direto pro sistema penitenciário. Se não tem vaga lá, o problema é do sistema, não da delegacia. Eu, como policial, penso em tirar o marginal da rua e prender. Mas ver esses depósitos de seres humanos dentro das delegacias do Paraná me faz pensar diferente”, diz Fábio.

A Polícia Civil informou que, da última sexta-feira (02) até esta quarta-feira (07), 60 pessoas haviam sido removidas da Central de Flagrantes. Mas, conforme Fábio, a média de entrada de presos no local é de 20 pessoas por dia. “Sexta, sábado e domingo não removeram ninguém. Segunda-feira tiraram 15 pela manhã e agora, que deu esse tumulto, estão saindo mais 30. Se analisar, entrou mais gente do que saiu”, calcula o sindicalista.

Isabel Kugler Mendes, advogada pertencente ao Conselho da Comunidade, já fez três visitas à Central de Flagrantes esta semana. Com dificuldade, ela está tentando conseguir atendimento de saúde aos presos. “Tem diabético sem insulina, asmático sem a bombinha, gente machucada, com sarna no corpo todo”, lamentou ela.

“Sem motivo”

A advogada ainda contou que há um morador de rua preso há mais de três meses ali, quase que “sem justificativa”. “Ele está aqui porque está sem documento. Os policiais não podem soltar porque não tem alvará de soltura. E não tem alvará porque a pessoa ‘não existe’ no Judiciário, porque não tem como identificar quem ele é. Então ele está morando aqui. Está aqui porque jogou uma pedra numa pessoa que o teria ofendido e porque bateu com a mão num tubo de ligeirinho”, contou Isabel.

Defensora dos direitos humanos, Isabel ressalta que o limite do sistema está esgotado. Se não lota nas delegacias, lota no sistema penitenciário, já que há anos não se abre nenhuma vaga nos presídios. “É um problema de planejamento, de administração. Há necessidade de ações conjuntas entre judiciário e executivo, de todos os órgãos competentes atuando juntos pra achar soluções. Se não, problema será sempre indefinido”, diz a advogada.

Central do caos