Cerca de 2,5 mil integrantes do Movimento Sem-Terra estiveram acampados em Curitiba desde a última terça-feira (31). Eles participaram de uma manifestação para reivindicar melhorias em obras de infraestrutura como estradas, financiamentos específicos para a agricultura e acesso à saúde e educação.

Entre os pedidos, a melhoria no acesso à educação e oferta de cursos técnicos sobretudo nas áreas de agroecologia, que permitam aos filhos dos assentados permanecer na terra, com técnicas modernas de plantio e preservação do meio ambiente.

Integrante do movimento, Eliane Aparecida Veiga Schons, 32, hoje luta para que seus filhos tenham pleno acesso à educação, oportunidade que ela não teve. Com apenas sete anos, ela se mudou com o pai, a mãe grávida e um irmão menor para um acampamento e, desde aquela época, convive com o MST.

Eliane conta que os pais eram filhos de agricultores do interior do Paraná e, quando se casaram, foram morar na casa da avó. No entanto, era uma família grande, de muitos irmãos, e a terra da avó dividida entre todos não provinha o sustento de nenhum deles.

Segundo o que a mãe contou a ela, o pai decidiu se aventurar na cidade quando ela era apenas um bebê de três meses. Sem estudo e sem experiência em qualquer tipo de trabalho, o pai não teve como sustentá-los na cidade e eles voltaram para a casa dos avós. Lá, a vida difícil obrigou o pai novamente a procurar alternativas. Eliane conta que, quando tinha sete anos, o pai estava novamente decidido a mudar com a família para Porto Alegre e procurar novamente emprego na cidade.

Era 1985 e o MST se instalava no Paraná, na região de Cascavel. Foi então que sobre o conselho da avó o pai resolveu se unir ao movimento. “A minha avó aconselhou ele a não ir, porque não ia aguentar. Ela disse: por que você não vai ver esse negócio aí dos sem-terra? E a gente foi”, conta Eliane.

Hoje, a trabalhadora disse que lembra o desespero da mãe, ao chegar grávida para passar a morar em um barraco de lona, onde não havia cama, cadeira ou fogão. “Em uma ocasião, pouco depois da gente chegar, teve uma tormenta. O vento queria levar o barraco e cada um segurava em uma das pontas. Eu lembro que a minha mãe chorava, chorava”, narra.

O pouco que a família havia levado da casa da avó foi acabando, sendo vendido para custear as despesas. Os pais se obrigaram a ir trabalhar de boia-fria e Eliane não pode ir à escola porque precisava cuidar dos irmãos menores.

A vida continuou com dificuldade até 1991, quando eles foram assentados em Cascavel. Mais uma vez, dificuldades fizeram com que a família fosse transferida para outro assentamento, em Lindoeste. Lá, funcionava um sistema de cooperativa. Os trabalhadores todos doavam seus pertences que eram tornados coletivos para a plantação. “Um tempo depois, a cooperativa se desfez e o assentamento foi criado em lotes individuais. A gente acabou de volta sem nada. Aos poucos, com trabalho, foi recuperando”, disse.

Foi na cooperativa, enquanto trabalhava na roça com o pai, que Eliane conheceu seu futuro marido. Casados, eles também não tinham como permanecer na terra dos pais e, novamente, voltaram para o acampamento, para viver em barracos de lona.

Apesar da dificuldade, Eliane conta que eles ficaram menos tempo nesta segunda vez. Pouco mais de um ano depois, eles receberam um lote no assentamento Contestado, na Lapa.

Hoje, eles plantam verduras e trabalham na escola que funciona dentro do assentamento. Com dois filhos, Mateus, 10 anos e Diane, de 7 anos, Eliane considera que a educação é muito importante para garantir o futuro dos filhos, que têm orgulho de fazer parte do movimento.

Ela diz que repassa aos filhos tudo o que a vida dura lhe ensinou. “As pessoas têm preconceitos. Elas não sabem, mas é bem sofrido. É uma escola da vida. É uma luta”.