Brasília (AE) – O líder da minoria no Senado, José Jorge (PFL-PE), disse que não ficou surpreso com a revelação do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, de que os bancos emprestavam dinheiro ao PT porque o ex-ministro José Dirceu era a garantia. "Todo mundo já sabia disso. O PT não fazia nada sem a autorização do Dirceu. O que o Marcos Valério está dizendo nós já tínhamos a certeza", disse José Jorge.

Em entrevista à Agência Estados na quinta-feira (4), Marcos Valério – apontado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) como operador do "mensalão" – disse que Dirceu era o "avalista político" de todos os empréstimos bancários feitos pelo PT.

Valério, no entanto, disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não sabia de toda a movimentação bancária de seu partido. Para os parlamentares da oposição, essa é a grande dúvida. "Claro que o Dirceu era o avalista, mas não era só ele, era o regime, o governo. A garantia em que os bancos apostavam era essa", afirmou o senador Álvaro Dias (PSDB-PR).

O deputado Carlos Abicalil (PT-MT), sub-relator da CPI dos Correios, disse que prefere ficar com a palavra de seu colega José Dirceu. "O Dirceu diz que não sabia dos empréstimos. O Valério afirma que ele sabia. O Delúbio Soares diz que o Dirceu não sabia. Então, está 2 a 1.

Prefiro acreditar no Dirceu", disse ele. Para o relator da CPI dos Correios, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), a declaração de Marcos Valério é importante. "Ele tinha dito que tudo era controlado pelo Delúbio, que repetiu essa mesma versão na CPI", disse ele.

Para o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM), o ex-ministro José Dirceu acabará cassado. "O Dirceu usou de valentia falsa ao dizer que não renunciaria. O eleitor desavisado pode achar que ele é diferente de Valdemar Costa Neto que renunciou, mas não há bravura nisso. Ele sabia que não poderiam abrir o processo contra ele porque não estava no exercício da atividade parlamentar", disse Virgílio. "Sabendo disso, ele chegou ao Conselho de Ética da Câmara arrotando valentia".

Para Arthur Virgílio, a maioria dos parlamentares do PT é honrada e uma minoria, de forma articulada, está envolvida em corrupção. Ele revelou preocupação pela impossibilidade de dimensionar a crise e o desejo de que ela se encerre. O senador avaliou que a crise ganhou dinâmica própria e é "avassaladora". "Cheguei a ter a ilusão de que as denúncias cessariam. Nunca foi assim. O caso Fernando Collor é um juizado de pequenas causas perto do que está aí", disse.

Marcos Valério disse que os diretores dos bancos BMG e Rural sabiam que Dirceu acompanhava as negociações dos financiamentos. Ele chegou a fazer uma provocação: "Algum banqueiro do País daria o aval para Delúbio e Valério? Os bancos só deram o aval porque sabiam que por trás tinha um conforto, uma garantia". Valério disse ainda que vai contar tudo o que sabe, mas a conta-gotas, bem devagarinho. "Vou fazer um estrago, um barulhão". Ele revelou ainda que Delúbio Soares avisava José Dirceu sempre que um novo empréstimo era concedido ao PT.

No depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, na terça-feira, José Dirceu disse que só sabia dos empréstimos para o PT no BMG, de R$ 2,4 milhões, no Rural, de R$ 3 milhões, e no Banco do Brasil, de R$ 21,5 milhões. Afirmou ainda que quando entregou a presidência para José Genoino, no final de 2002, o PT só devia R$ 500 mil. Todos os empréstimos feitos para o caixa 2, disse Dirceu, são problema da direção do PT. Disse que, como ministro da Casa Civil, não tinha condição de acompanhar a vida do PT.