Os Venturelli, proprietários de moinhos de trigo, e os Favoretto, donos de milhares de alqueires de terras altamente férteis, polarizam a riqueza de Sertanópolis, norte do Paraná, mas, a partir do concurso 790 da Mega Sena, realizado quarta-feira, terão de abrir espaço no pódio da fortuna para o conterrâneo que acertou sozinho as dezenas 12, 16, 28, 29, 47 e 50. Como o prêmio estava acumulado havia várias semanas, o felizardo – que gastou R$ 3 em duas apostas – embolsará exatos R$ 26.132.814,65.

O sortudo, no entanto, não havia se apresentado até as 17h15, garantiu Sady Mauro Gehring, gerente de uma agência do banco na vizinha Ibiporã. Gehring passou o dia em frente à Lotérica Rodoviária, onde a aposta foi feita, aguardando que o vencedor fosse receber o prêmio, já que o banco não possui agência em Sertanópolis. "Ninguém se apresentou aqui ou em qualquer agência do Brasil", acrescentou, explicando que mantinha contato freqüente com a direção da Caixa.

"Aplicado a 1% ao mês, esse dinheiro renderá R$ 260 mil, mas se a remuneração for de 2%, vai dar para dar a entrada numa fazenda, e das boas", especulava o corretor Itamar da Silva, que, como os colegas do ponto central de corretagem – a "pedra" -, localizado ao lado da Prefeitura, passou o dia especulando sobre quem teria sido o conterrâneo sortudo.

"A cidade está em convulsão", resumiu Jurandir Batista Januário, chefe da gabinete da Prefeitura. O prêmio milionário passou a ser de interesse oficial, já que o orçamento anual do município, de 17 mil habitantes, dos quais mil são beneficiados pelo programa Bolsa-Família, é de R$ 14 milhões. "É quase o dobro de tudo o que faturamos num ano", contabilizava Januário, ressaltando que metade dos recursos municipais é destinada ao pagamento do funcionalismo. A Prefeitura emprega 500 pessoas.

O comerciante Darci Barbieri se transformou na principal referência sobre o possível ganhador. Ele também passou o dia em frente à lotérica, que se transformou repentinamente num centro de peregrinação, pois centenas de pessoas passaram por lá para fazer a pergunta inevitável: "Quem foi?".

Barbieri fez a sua aposta às 14h37m33s de quarta-feira e o ganhador, às 14h38m11s. "Foi ela sim", garantia Barbieri, afirmando que a apostadora estava atrás dele na fila. "Ela tinha o cabelo curto, assim ó, atrás da orelha, e usava um vestido simples; eu nunca a tinha visto antes".

Mas um telefonema para seu celular fez Barbieri mudar repentinamente de opinião: "Foi o Silvinho, que apostou junto comigo. E ele havia dito que estava predestinado para ganhar sozinho este prêmio".

O faz-tudo Luiz Antonio de Souza, um dos plantonistas em frente à lotérica, observou: "Não quero nem saber quem foi, mas se for pobre, pode escrever aí: perdeu a tranqüilidade para sempre".