O presidente da Renault, Louis Schweitzer, resolveu enxergar o óbvio: “A empresa perde muito dinheiro no Brasil e não vê nenhuma saída no momento”. Elementar, meu caro Watson! E não é só isso. Se alguém da operação local da montadora quiser fazer o favor de levar essa missiva até o engravatado diga a ele que vai continuar perdendo muito mais. Razões para isso estão na cara de quem olhar para alguns dos modelos produzidos atualmente e outros em vias de chegarem ao mercado.

Com exceção da Scénic (bela e formosa, por enquanto) e do Laguna (importado a preços proibitivos), a Renault só tem se esmerilhado em produzir automóveis horrorosos. Se não, vejamos. O Clio, que já era esquisito, mas estava ficando familiar aos olhos do brasileiro, ficou um monstrengo. O Clio Sedan, então, para ficar feio tem que melhorar bastante e o Mégane parece uma colagem de vários estilos juntados num modelo apenas para justificar uma reestilização e dizer que o carro está mais “moderno e adequado aos conceitos atuais”. Sem contar o, vamos colocar assim, “exótico” Twingo.

Pior do que isso é que as primeiras fotos da nova Scénic mostram que ela também foi submetida a algum doutor Frankenstein ou está sofrendo de algum mal súbito que degenera suas belezas. Em menor grau, o Laguna passou por uma mexida leve e, graças a Deus, manteve a personalidade apesar de o preço continuar para poucos.

Assim não dá para ser feliz. A Renault, que está no Paraná graças a gordos incentivos fiscais, deveria agradecer por estar aqui e poder vender seus automóveis aos brasileiros. Além disso, deveria olhar também para o mercado e ver o que está acontecendo. Porque será que o Peugeot 206 vende tanto e tem até o mesmo motor do Clio? E com preços parecidos! Lado a lado, porque qual deles você se interessaria em comprar? O mesmo vale para os outros modelos, que são caros e não estão atendendo às necessidades do mercado.

Com tudo isso, ou a Renault desce do salto alto, arregaça as mangas e começa a trabalhar sério, ou vai perder dinheiro mesmo. As pessoas não são tão idiotas assim para ficar torrando dinheiro com produtos que não trazem o benefício desejado. Ainda mais um mundo onde tradição e imagem contam muito, como de veículos. Se não fosse assim, todos os carros seriam iguais e estaríamos andando de “laikas” e “trabants”, como nos países do leste europeu antigamente. Nem eles mais aceitam essas carroças e não será o Brasil que vai adotar patinho feio para francês lucrar.

Soluções? As montadores estrangeiras têm que explorar mais o talento nacional. Afinal, o brasileiro não é apaixonado por carro? Por que nós não podemos desenhar nossos próprios carros? O veículo mais vendido há quase 20 anos é o mesmo e foi projetado por brasileiros: o Gol. Quer exemplo melhor do que esse? Se juntarem um bom conjunto mecânico, confortável, com estilo e preço justo, não tem erro: será sucesso, basta a Renault abrir os olhos.

Rodrigo Sell

(esportes@parana-online.com.br) é repórter de Esportes em O Estado.