Brasília (AE) – Severino Cavalcanti teve hoje (22) o primeiro dia sem mandato em 42 anos, desde que se tornou prefeito de João Alfredo (PE). Com a renúncia ao mandato de deputado, ele e sua família desocuparam a residência oficial da presidência da Câmara, um casarão à beira do Lago Paranoá, e passaram a ocupar um apartamento funcional em Brasília, o mesmo em que morava quando era apenas um deputado, não o presidente da Casa, e a que tem direito por mais um mês, mesmo sem mandato. A quadra, 302 norte é a mesma que já abrigou o deputado cassado Roberto Jefferson e o deputado federal José Dirceu, que pode ser o próximo na lista de cassações.

Na noite da sua renúncia, Severino nem mesmo viu os jornais na tevê que mostravam sua renúncia com destaque. Passou boa parte da noite falando no telefone com correligionários e prefeitos de Pernambuco e armando o início da sua próxima campanha para deputado federal – que pretende ganhar no ano que vem, com o dobro de votos, em uma mostra de que será absolvido pelo povo, como disse em seu discurso de despedida.

O ex-deputado já tem planos de percorrer Pernambuco a partir da próxima semana, quando finalmente vai deixar Brasília. Acha que se dedicou muito à Câmara nos últimos meses e agora precisa cuidar das suas bases. Afinal, como diz sua esposa, dona Amélia, Severino adora eleição – "quando tem uma, ele inventa", sempre diz ela. Como "inventou" sua candidatura à presidência da Câmara, que terminou em desastre.

O primeiro dia depois da renúncia foi calmo. Severino e dona Amélia, saíram às 8h30 da manhã de casa para fazer uma operação de catarata no olho esquerdo. O casal já tinha feito a mesma operação no olho direito há cerca de 15 dias. Ficaram no Hospital Oftalmológico de Brasília por cerca de uma hora. Saíram sem ser vistos e não voltaram para casa. Catarina, a filha que ficou em Brasília para acompanhar os pais, decidiu levá-los para a casa de amigos, em local incerto. Estava incomodada com a presença constante de jornalistas e fotógrafos em frente ao apartamento funcional.

Fora do poder, Severino não fez grandes articulações no dia de hoje. Falou pelo telefone com o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP) – um dos candidatos à sua sucessão -, mas não para apoiá-lo. Queria que Chinaglia desmentisse a história espalhada pelo deputado Fernando Ferro (PT-PE), de que Afif Domingos havia oferecido dinheiro para que Severino se licenciasse em vez de pedir a renúncia. O ex-presidente da Câmara teria ficado "indignado" e queria até mesmo dar entrevistas para desmentir a conversa. Catarina, mais uma vez, não deixou – apoiada por dona Amélia.

A vida de Severino em Brasília está acabando. Por enquanto, espera o deputado, que quer estar de volta em 2007. Mas, por hora, lhe restam apenas alguns dias, enquanto se recupera da cirurgia de catarata. Os médicos não querem que ele viaje antes de cinco dias. Da capital, de volta a João Alfredo, onde começou como prefeito e saiu como deputado estadual por seis mandatos.

Parte da mudança já foi. O restante, sai na próxima semana. No gabinete da presidência da Câmara, os resquícios de Severino também saíram. Fotos de campanha e da família, diplomas os santos que carrega para onde vai, já foram embalados. Restaram, por enquanto, os funcionários. Ficam até quarta-feira, quando será eleito o sucessor do presidente mais breve da história recente da Câmara.