A sociedade – diziam os militares naqueles tempos cinzentos – é como uma floresta. Vista de longe, todas as árvores parecem retas. Mas, ao se aproximar, o observador poderá notar com clareza, que nem todas são retas. Algumas são retorcidas, tortas. Outras são muito tortas. Compete ao jornalista saber distinguir entre as árvores retas e as árvores tortas.

O presidente Lula recebeu no Dia do Jornalista, uma delegação de profissionais da imprensa em palácio. Quase todos dirigentes sindicais, capitaneados por diretores da Federação Nacional dos Jornalistas que, segundo se anuncia, foram levar ao presidente o pedido de criação do Conselho Federal de Jornalismo que, como os demais no País, deverá passar a cobrar pedágio para o exercício da nobre profissão em troca da sempre duvidosa fiscalização do mercado. Lula, assessorado pelos ministros Berzoini, do Trabalho, e Gushiken, da Secretaria de Comunicação do Governo, perdeu a oportunidade de ficar quieto. Outra vez.

Falando antes de Lula, Gushiken repetiu em outras palavras o que os militares, à boca pequena, nos quartéis, consideravam árvores retas e árvores tortas: a defesa da divulgação de fatos positivos. O presidente percebeu a mancada e tentou consertar, dizendo que gostaria que seu governo deixasse para o País o exemplo de uma “relação leal” com os meios de comunicação. “Quando digo leal – aduziu – é a relação em que, em nenhum momento, o governo deve pedir para um jornalista falar bem dele e, em nenhum momento, um jornalista deve falar mal simplesmente porque quer falar mal.”

Deu para entender o recado. “A exploração do contraditório – dissera Gushiken – muitas vezes pode fomentar a discórdia, conflitos de egos, quando na verdade são apenas disputas de idéias normais num processo de debate.”

Também o presidente Bush certamente gostaria que as bombas que explodem no Iraque fossem, por um passe de mágica, transformadas em buquês de flores.

“O Brasil – disse mais Gushiken – está preparado, quer dizer, os leitores, os telespectadores, os ouvintes estão ansiosos para saber aquilo que germina em termos de coisas boas e este país está cheio de coisas boas. Mas é preciso que essa janela para o mundo, que tem vocês (os jornalistas) como elementos fundamentais possa oferecer isso”. Disse mais, que no estágio brasileiro, um “critério importante é o da agenda positiva”, pois todo brasileiro “tem necessidade de saber aqueles empreendimentos positivos que a sociedade está oferecendo”. A agenda positiva, como se sabe, vem em contrapeso aos estragos causados pelos fatos negativos decorrentes do Waldogate e seus desdobramentos.

Enquanto assim filosofavam em Palácio, o ministro Miguel Rosseto, do Desenvolvimento Agrário, acordava de uma longa reflexão para dizer, dois dias depois do acontecido, que a ocupação dos sem-terra na Bahia, onde os invasores colocaram abaixo uma floresta de eucaliptos diante das câmeras, é inaceitável. Dia anterior, dissera – embora ninguém colocasse fé – que o campo vive em “normalidade democrática”. Seguindo os ensinamentos de Gushiken, nenhum contraditório a explorar nesses fatos que mais preocupam a sociedade no momento atual. Dias atrás o ministro José Dirceu, da Casa Civil, que um dia acolheu Waldomiro Diniz, também tentou repreender jornalistas em busca da verdade – o eterno compromisso de um bom jornalista. Deu-se mal, não por culpa da imprensa. Mas pelo que resolveu dizer.

Seria melhor que o presidente Lula, que sempre soube usar muito bem os meios de comunicação em sua estratégia política, deixasse de palpitar sobre assuntos vários e tratar de comandar o governo, também feito de árvores tortas, como em qualquer floresta. E acreditasse que não existem fatos negativos que resistam à força dos fatos positivos, quando eles de fato existem.