Lisboa (AE-DJ) – O Grupo Sonae – que apresentou na segunda-feira uma proposta de 10,7 bilhões de euros (US$ 12,8 bilhões) pela compra da Portugal Telecom – planeja se desfazer dos ativos da operadora no Brasil, caso consiga adquirir a empresa. A Portugal Telecom possui 50% da Vivo, maior empresa de telefonia celular do País. A outra metade pertence à espanhola Telefónica, que também é a maior acionista individual da operadora portuguesa, com 9,96%.

Segundo notícia publicada no portal português Sapo.pt, que pertence à Portugal Telecom, a Sonaecom, empresa de telecomunicações da Sonae, acha que a operação brasileira "não está em linha com a estratégia que a Sonae definiu para as operações internacionais, com tecnologia própria". O presidente da Sonaecom, Paulo Azevedo, disse ainda à imprensa portuguesa que o Brasil "não só não tem sido estratégico, como tem sido prejudicial para a Portugal Telecom", acrescentando que a Vivo tem consumido quase todo o fluxo de caixa gerado pela empresa em Portugal.

A Vivo é a única empresa do Brasil a usar a tecnologia CDMA, americana. As demais operadoras celulares do País adotam a tecnologia GSM, européia. Segundo o site do jornal português Público, Azevedo reclamou que "a Vivo nem sequer utiliza a mesma tecnologia" das outras empresas do grupo.

Rumores sobre a saída da Portugal Telecom da Vivo já circulam no Brasil muito antes da oferta de compra feita pela Sonae. Os portugueses vêm perdendo espaço na administração da operadora brasileira, o que ficou claro em maio do ano passado, quando o executivo português Francisco Padinha foi substituído pelo brasileiro Roberto Lima. O presidente do Grupo Telefônica no Brasil, o também brasileiro Fernando Xavier Ferreira, passou a acumular a presidência do conselho da operadora. Em dezembro, o português Luís Avelar deixou a vice-presidência de marketing e inovação da Vivo.

O banco de investimentos Merrill Lynch acredita que a Sonae poderia vender a participação na Vivo para a Telefónica, o que seria benéfico para a operadora. "Em primeiro lugar, embora a Telefónica Móviles enfrente dificuldades no México, a empresa é vista como uma operadora melhor que a Portugal Telecom", afirmaram, em relatório, os analistas Maurício Fernandes, Jonathan P. Groberg e Gláucia Renda. Em segundo lugar, eles acreditam que o processo de decisão dentro da Vivo seria aprimorado. Em terceiro, apontam o fato de a Telefónica controlar também a operadora fixa em São Paulo. "Isto poderia oferecer sinergias substanciais em termos operacionais e fiscais de uma eventual combinação das duas."

Hoje (7), as ações da Portugal Telecom subiram 18,46% na Bolsa de Valores de Lisboa, impulsionadas pelas esperanças de uma contraproposta. A alta foi maior que o prêmio de 16% oferecido pela Sonae. A espanhola Telefónica é considerada a mais provável interessada, mas enfrentaria problemas políticos para comprar o controle da Portugal Telecom. O governo português, que tem poder especial de veto sobre a operadora, se mostra contrário à venda da Portugal Telecom a uma empresa estrangeira. A Telefónica se recusou a comentar a situação. A France Telecom, por sua vez, disse que não está envolvida na oferta da Sonae pela Portugal Telecom. A operadora francesa possui 23,75% da Sonaecom.

A compra da Portugal Telecom pela Sonae deve ser bem recebida por Lisboa. Portugal tem recebido pressões da Comunidade Européia para abrir mão de seu poder de veto sobre as decisões na Portugal Telecom, o que abriria espaço para a operadora ser comprada por alguma empresa de outro país da Europa. A oferta da Sonae pode ser vista como uma saída para a Portugal Telecom se manter sob controle português. "Na parte das telecomunicações, é uma certa alternativa ao investimento estrangeiro", afirmou Belmiro Azevedo, presidente do Grupo Sonae, sobre a proposta de compra da Portugal Telecom, segundo o site do jornal Diário Econômico.

O banco espanhol Santander garante a oferta da Sonae pela Portugal Telecom. A Sonae disse que pagará ao Santander em sete anos. A companhia também informou que a sua subsidiária Sonaecom fará uma emissão de direitos de 1,5 bilhão (US$ 1,79 bilhão) para ajudar a financiar a oferta.