Não há provas da prática do mensalão, muito embora o que costuma acontecer no nosso sistema político autorize a acreditar que possa ter existido. Ou ainda exista. O motivo é muito simples. Se mensalão havia ou ainda há, era pago em dinheiro vivo, sem revelação de quem o recebia, sem recibos e as únicas provas possíveis, as testemunhais, rareiam quando a maioria é beneficiada por tão vergonhosa maracutaia.

Mas está sobejamente provado e há confissões de uma prática tão ou mais grave. O caixa 2, compra de apoio de partidos, grupos de parlamentares, ou seja, um mensalão por atacado, em que eram atraídas para apoiar o governo agremiações como o PTB, o PL, o PP e outras mais. Ou seja, o PT e seu governo compraram a sua base político-parlamentar para ter maioria, mesmo que pontual, conseguindo assim a aprovação de suas propostas e a rejeição daquelas que não eram do seu agrado.

Políticos do PT e seus aliados elegeram-se com dinheiro escuso, ilegal, proibido pela legislação eleitoral e de origem em parte desconhecida. Sabe-se que uma fortuna veio de bancos através de um empresário de publicidade de Minas Gerais e com a orquestração do tesoureiro do PT, diz-se que sob a regência do então todo-poderoso José Dirceu. Outra teria vindo do exterior. De fontes lá de fora ou com o uso de paraísos fiscais para camuflar as fortunas que foram investidas nesse processo político-eleitoral. Onde a legitimidade de quem foi assim eleito? Não houve só a ilegalidade do caixa 2, o gasto acima do permitido e declarado à Justiça Eleitoral. Houve abuso do poder econômico e mandatos e apoios foram conquistados sem o conhecimento do eleitorado.

Isso é comprar votos por atacado e quem conquista mandatos dessa forma é detentor de representação ilegítima. Merece a cassação, como aliás o PT, enquanto oposição, tanto pregou. Lembremo-nos do caso de Curitiba, onde tentaram até o fim a cassação do mandato de Cassio Taniguchi, acusado de declarar à Justiça Eleitoral verbas de campanha menores do que as que utilizou. Deu em pizza pela decorrência do tempo. O mandato terminou antes do julgamento da causa.

Mas no fétido escândalo que mostra podridão dentro do até há pouco considerado vestal PT, com respingos de lama sobre o governo, as coisas caminham para a minimização do crime. Como na música popular, tapinha na bunda não dói. E, assim, o espírito corporativo parece que vai imperar e, como defende o presidente da Câmara dos Deputados, o já folclórico e retrógrado pernambucano Severino Cavalcanti, cassações são punições excessivas para esses casos. Prefere uma advertência, um puxão de orelhas, um tapinha na bunda, alguma coisa mais branda, porque é preciso ter mais consideração pelos parlamentares do que pelo povo que os elegeu…

A única cassação prevista, possível e já com parecer favorável é a de Roberto Jefferson, o presidente do PTB e aliado de Lula que, pego com a boca na botija, resolveu espalhar dejetos pelo ventilador, mostrando a vastidão da sujeira. Ele merece ser cassado, mas será afastado da política como uma espécie de delator precioso. Indubitavelmente merece a cassação do seu mandato, mas também uma medalha pelas corajosas revelações que fez da podridão que estava (está) atingindo o Congresso, o governo e o PT. Virou o bom ladrão.