O prefeito Beto Richa, no comando temporário da capital dos paranaenses, tem razão: não é o usuário do transporte coletivo de Curitiba quem tem que pagar o pato no caso da fraude dos vales falsos que levaram o sistema (sempre apontado como modelo na propaganda e nos discursos de campanha) à beira da bancarrota. A fraude terá que ser paga por quem se beneficiou dela, sejam políticos de alto bordo, sejam larápios de fino trato. O passageiro metropolitano, integrado e socializado na tarifa única, não tem nada com isso. E ponto final.

O Dieese – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos também tem razão. O preço da passagem, expurgado o rombo do escândalo até aqui sem culpados, não pode passar de R$ 1,73. Para não complicar o troco, é melhor arredondar para baixo – R$ 1,70. Os outros R$ 0,20 equivocadamente autorizados pelo decreto suspenso, devem ser debitados na conta daqueles que há séculos sabiam – incluindo a própria gerenciadora do sistema, a Urbs – do tremendo roubo que se cometia contra o bolso do povo à luz do dia.

Imagina-se, pelo debate até aqui conhecido, que o rombo alegado está pouco acima da casa dos dez milhões de reais. Talvez doze, talvez quinze. No máximo. O resto é alquimia contábil, que confunde tempo com volume. Não advém, entretanto (repita-se para ficar mais claro) do sistema, que se remunera com folgas e sobra troco para lucros e gorduras. O rombo foi causado pela circulação sistemática e ao longo do tempo de moeda falsa – os vales fabricados em fundo de quintal, sem lastro no Tesouro municipal. Coisa sabida há mais de dez anos, mas evitada por todos que passaram pela direção da Urbs, ora tão ciosa de suas obrigações.

Quem se beneficiou da fraude é a pergunta que deveria interessar sobremaneira às autoridades. Quem conhecia o crime e silenciou (e por qual motivo o fez) também seria a mira ideal para qualquer investigação séria e responsável. Isso, entretanto, não está contando agora que alguém resolveu correr atrás do prejuízo assaltando o bolso do povo. Deixar que isso aconteça, entretanto, seria rir do povo outra vez – e é isso, certamente, que o prefeito em exercício, Beto Richa, não quer que aconteça para não incluir essa mancha em seu currículo eleitoral mal começado.

Dizem que há razões políticas para tanto. Vá lá. Da boa política sejam bem-vindas todas. Antes de subir o preço das passagens – também por outras razões políticas – é melhor que se converse o assunto por inteiro. A começar por outras saídas que poderiam cobrir o prejuízo que ameaça de morte o sistema. Que tal, por exemplo, avançar noutra área nebulosa – aquela dos recursos originários das multas de trânsito, que ninguém sabe exatamente quanto somam nem como são empregados?

Ameaçam os nobres vereadores da cidade aprofundar o debate sobre tema que o titular Cassio Taniguchi tinha enterrado antes de sair em outra vilegiatura pelo Velho Mundo. Também fazem bem. Mas que não seja apenas para colocar mais confusão num angu já estragado. O que interessa saber são basicamente duas coisas: de onde provém o furo, e de que forma tapá-lo sem assaltar o bolso do povo. Se a investigação não seguir nessa direção, é de se desconfiar que entre os beneficiários do rombo estejam também políticos comunitários, para não nominar nobres edis, em tese a serviço dos usuários já condenados pelo decreto municipal suspenso.

Dizem que o único mérito da presidenta da Urbs, Yara Eisenbach, foi ter tido a coragem de meter o dedo na ferida dos vales falsificados. De resto, tudo foi uma sucessão de equívocos, onde se mistura a má política com a cumplicidade de culpados. O mérito de Beto Richa, por sua vez, é este de brecar em boa hora um reajuste equivocado, já que a tarifa proposta embute o rombo não investigado. Faca e queijo na mão, agora o imbroglio precisa ser fatiado e radiografado para saúde do sistema e alegria dos usuários ludibriados.