O presidente do PT, Tarso Genro, afirmou que o publicitário Marcos
Valério fará "um favor" se entrar na Justiça para receber o dinheiro que diz ter
emprestado ao partido. Tarso disse não ter sido procurado por Valério, que acusa
a direção do PT de tentar lhe dar um calote e ameaça contar tudo o que sabe se o
partido de Luiz Inácio Lula da Silva não pagar o que deve a ele. Pelas suas
contas são R$ 93 milhões.

"Provavelmente, essas dívidas são ilegais e é
importante que Marcos Valério entre na Justiça. Se ele me procurar, vou
encaminhá-lo ao ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares", disse Tarso. "Para nós,
seria bom que ele entrasse na Justiça, pois assim verificaríamos por que essas
dívidas foram contraídas, já que devemos contestá-las."

Levantamento
feito pelo gabinete de crise do PT indica que as dívidas do partido já superam
R$ 160 milhões. O valor inclui a estimativa de gastos não contabilizados por
Delúbio. "Nosso ex-tesoureiro foi o terceirizador das finanças do PT, que não
tinha conhecimento do que ele fazia. Se pessoas da direção passada não sabiam,
muito menos nós, da atual gestão", afirmou Tarso.

Ao destacar que seus
comentários não representavam uma provocação, o presidente do PT disse que
Marcos Valério deve contar tudo o que sabe à Justiça. Tarso repetiu que, se o PT
fosse uma empresa, estaria em situação falimentar. "Existem dois tipos de gestão
temerária: uma de quem contrai a dívida e outra de quem paga débitos não
legalmente contraídos", argumentou. "Nós não podemos pagar dívidas que não
fizemos."

Questionado se o PT entraria na Justiça contra Delúbio, Tarso
mostrou cautela. "Esse é um outro capítulo", disse. "Por enquanto, ele vai
responder pelo que fez na Comissão de Ética do partido." Em conversas
reservadas, dirigentes do PT afirmam que o ex-tesoureiro será expulso da
legenda.

O prefeito de Guarulhos, Elói Pietá, distribuiu uma carta na
reunião do Campo Majoritário do PT questionando a administração passada do
partido. "Quem permitiu terceirizar nossas finanças?" perguntou. "Como foi
possível que alguns dirigentes desenvolvessem ações que nada têm a ver com
nossas práticas?"

Irritado com a cobrança, o ex-chefe da Casa Civil José
Dirceu – que foi presidente do PT de 1995 a 2002 – usou seu argumento predileto.
"Não é possível essa disputa entre éticos e não éticos", reclamou.

Para o
deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), o comportamento de Marcos Valério "é típico
de integrante de quadrilha que quer ajuda para não ser preso ou que é
pressionado para omitir o que sabe". A avaliação é compartilhada pelo deputado
Eduardo Paes (PSDB-RJ), integrante da CPI dos Correios. "Marcos Valério continua
fazendo o jogo do PT, mas dá o alerta de que pode partir para a chantagem",
afirmou. "Na prática, ele está tentando consolidar uma história que ele e o
Delúbio inventaram, porque é claro que não existe empréstimo nenhum e que tudo é
caixa 2."