São Paulo – Após a euforia de dezembro, o mercado de trabalho esfriou em janeiro. A dispensa dos empregados temporários contratados no fim de ano elevou a taxa de desemprego no primeiro mês de 2006 para 9,2%, ante 8,3% em dezembro. Houve queda de 1,2% no rendimento médio real dos trabalhadores ante o mês anterior.

Apesar da esperada piora em relação ao último mês do ano passado, o cenário é melhor do que o apresentado no início de 2005, quando a taxa de desemprego tinha chegado a 10,2% nas seis principais regiões metropolitanas do País. Além disso, o rendimento foi 2,3% maior no primeiro mês deste ano ante igual mês de 2005.

O coordenador da pesquisa, Cimar Azeredo, disse que a alta na taxa invariavelmente ocorre no primeiro mês do ano e, por isso, classificou os resultados divulgados hoje (23) como "bons, favoráveis". Avaliação compartilhada por Marcelo de Ávila do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), para quem os dados são "razoavelmente bons e o aumento da taxa era esperado".

Já para Guilherme Maia, da Tendências Consultoria, os números de janeiro "vieram fracos e confirmam a visão de que os resultados muito positivos de dezembro não sinalizavam o início de uma recuperação forte do mercado de trabalho".

Segundo Azeredo, o aumento da taxa ocorreu em conseqüência da demissão de trabalhadores temporários (que reduziu o número de ocupados em 1,1% ante dezembro) e do aumento da procura por uma vaga (que elevou o número das pessoas desocupadas, das sem trabalho e das que estão procurando emprego em 10,8%).

Historicamente, a taxa de desemprego no primeiro mês do ano é superior à divulgada em dezembro. Isso ocorre porque segmentos como o comércio dispensam os trabalhadores contratados para as vendas de fim de ano. Além disso, os desempregados paralisam a procura por uma vaga durante os feriados de dezembro e voltam a ativa em janeiro, aumentando o número de desocupados e, em conseqüência, a taxa.

"Janeiro, fevereiro e março são meses de alta na desocupação", observou Azeredo. Para ele, "agora é esperar quando virá o ponto de inflexão, quando a taxa começará a cair". Tradicionalmente, a taxa de desemprego sobe no início do primeiro semestre e começa a cair entre maio e julho, apresentando trajetória quase sempre decrescente até o final do ano, chegando ao menor nível anual em dezembro.

Desconforto 

Para Azeredo, os dados do rendimento e da formalidade são os únicos que trazem "um pouco de desconforto" nos resultados do mercado de trabalho em janeiro. Além da queda no rendimento ante dezembro, o número de ocupados com carteira assinada recuou 0,5% nessa base de comparação.

Ele observou que, para ambos os indicadores, é preciso esperar o resultado dos próximos meses para verificar se há uma tendência de queda ou apenas um recuo pontual. A informalidade também caiu em janeiro, com redução no número de trabalhadores sem carteira (-2,3%) e por conta própria (como camelôs, -3,8%) em relação a dezembro. Outra boa notícia é que, na comparação com janeiro do ano passado, o número de trabalhadores com carteira assinada aumentou 6,4%.

Ao contrário de Azeredo, Marcelo de Ávila considera os dados da formalidade os destaques positivos da pesquisa, sobretudo com contabilidade de médio prazo. Segundo ele, nos últimos 12 meses, das 510 mil vagas criadas, 96,5% foram formais "Houve aumento na qualidade do emprego", avalia.

Perspectiva 

Para Azeredo, a perspectiva é de um desempenho melhor do mercado de trabalho em 2006 do que no ano passado. "Poderemos ter um 2006 de mais alívio", disse. Ele lembrou que o ano eleitoral facilita a criação de vagas e há um aumento forte da ocupação no segundo semestre. "Podemos acreditar, com os dados de janeiro, que pelo fato de ser um ano eleitoral possa haver uma evolução no mercado de trabalho, ainda no primeiro semestre", disse Azeredo.

Para Guilherme Maia, os dados de janeiro "sinalizam recuperação gradual do mercado de trabalho em 2006, com destaque para a renda". Marcelo de Ávila acredita que serão criadas mais vagas neste ano do que em 2005.