Uma das preocupações do Sebrae é criar ferramentas simples para promover o desenvolvimento com inclusão social. Por isso, a Instituição participa da formação da Rede de Tecnologia Social, junto com parceiros, ajudando a difundir métodos de baixo custo que contribuem para o aumento da renda na área rural. Para mostrar experiências bem-sucedidas realizadas pelo País, a ASN publica, a partir desta matéria, uma série especial com exemplos das ações que estão sendo desenvolvidas.

O caprinocultor paraibano Cícero dos Santos demorou a entender. Afinal, por que raios tinha de lavar as tetas das cabras e separá-las dos machos antes de começar a ordenha? Agora, ele não apenas sabe a importância dessas técnicas para evitar odores desagradáveis no leite, como as ensina a outros produtores da mesma comunidade. ?É importante higienizar as tetas para garantir a qualidade do leite e separar o macho porque o cheiro dele também pega no produto?, explica.

Cícero é um dos 700 agentes de desenvolvimento rural (ADR) existentes no País que contribuíram para os avanços registrados nesta década tanto em caprinovinocultura quanto em apicultura, duas atividades rurais exercidas no Nordeste, principalmente por produtores familiares. Nos últimos cinco anos, o rebanho caprino registrou crescimento anual de 50% e o aumento da produção de mel colocou o Brasil entre os maiores exportadores do mundo. Agora, a experiência será reaplicada em outras atividades do agronegócio familiar.

Os ADR são pessoas das próprias comunidades rurais que recebem capacitação técnica para orientar os produtores sobre manejo, controle de pragas, vacinação, alimentação, higienização, controle das colméias e procedimentos de reprodução. Em 11 de julho de 2001, a idéia foi efetivada pelo Sebrae na Paraíba com base no êxito alcançado pelos agentes comunitários de saúde empregados no combate à mortalidade infantil.

A maioria são jovens e filhos dos produtores. Por serem da comunidade, eles conhecem os problemas locais e têm mais facilidade para transmitir conhecimentos. Supervisionados por profissionais graduados, eles recebem remuneração em torno de 400 reais, além da ajuda de custo das associações e das prefeituras ligadas à área em que atuam.

Cada ADR visita cerca de 20 propriedades por semana. Muitos deles se movimentam com motos adquiridas com a remuneração que passaram a receber. As motos também são usadas no transporte do leite até as usinas.

Novos nichos

Na época da criação da experiência, havia seis usinas de beneficiamento de leite de cabra na região do Cariri paraibano. Mas a produção era insuficiente e o leite pouco consumido. Tanto os produtores quanto a população não tinham noção do seu valor nutritivo. ?Não sabíamos que o leite era bom, pois o cheiro era forte?, lembra Juarez da Silva, produtor do município de Monteiro, no sul da Paraíba, a 300 quilômetros de João Pessoa.

Hoje, no Estado, 68 ADR prestam assistência a 1.500 produtores em caprinovinocultura e também em apicultura. Expandida pelo País como exemplo de baixo custo e alta eficácia, a experiência será repetida em outros nichos rurais do agronegócio familiar e da pequena empresa rural, a exemplo de fruticultura, horticultura, aqüicultura e pesca.

A expansão foi anunciada por Luiz Carlos Barboza, diretor-técnico do Sebrae Nacional, durante o primeiro Encontro Nacional de ADR, realizado em outubro do ano passado em Campina Grande, na Paraíba, onde tudo começou. ?Vocês têm sido importantes porque levam conhecimento tecnológico e ajudam a melhorar a auto-estima das famílias atendidas?, disse Barboza.

Para ele, os ADR devem ser incluídos em políticas públicas nacionais, estaduais e municipais. ?Os ADR são agentes políticos no melhor sentido da palavra, porque têm o poder de influenciar no desenvolvimento de suas comunidades?, complementou o gerente de Agronegócio do Sebrae Nacional, Juarez de Paula.

Agentes de mudanças

A atuação dos ADR na Paraíba e em mais 16 estados rendeu um produto de valor inestimável ? o avanço do associativismo e a melhoria da qualidade de vida com geração de emprego e renda. Há produtores que já concretizaram o sonho de comprar as terras em que trabalham. ?O mais importante para um ADR é saber lidar com as pessoas para que elas sejam capazes de promover mudanças, disseminar a cultura empreendedora e auxiliar no desenvolvimento local?, avaliou o gerente Juarez de Paula.

No caso da caprinovinocultura no Cariri paraibano, os ADR contribuíram para aumentar de sete para 20 o número de entidades envolvendo 527 criadores de cabras. Juntas, as associações são responsáveis pela produção de 100 mil litros de leite por mês. Uma das maiores usinas da região é a da Associação de Ovinocaprinocultores do Cariri Ocidental ? Aocop, sediada em Monteiro, com 140 produtores.

Atualmente, a entidade responde por 70% da produção de leite caprino do Estado. A maior parte (85%) é adquirida para o programa Fome Zero. O restante vira iogurte de morango e achocolatado distribuídos na merenda escolar da rede pública de ensino. ?O sabor é bem aceito pelas crianças?, destaca Alécio Ferreira, manipulador-chefe da pasteurização da usina da Aocop. O desafio agora é fornecer ao mercado outros derivados como iogurtes, queijos e leite em pó.