Brasília (AE) – Numa estratégia preventiva para enfrentar turbulências que possam surgir no mercado financeiro em 2006, o Tesouro Nacional vêm engordando o seu caixa e já conseguiu antecipadamente 77% dos recursos necessários para honrar compromissos com o pagamento da dívida externa no próximo ano.

Esse movimento tem sido favorecido pelas condições extremamente favoráveis no mercado internacional, onde é grande o fluxo de recursos para os países emergentes como o Brasil.

No front interno, o Tesouro também mantém uma reserva estratégica suficiente para honrar os vencimentos de títulos públicos da dívida doméstica no prazo de 4 a 5 meses à frente.

Chamado no jargão do mercado financeiro de "colchão de liquidez", essa reserva permite que, em situações de estresse, o Tesouro deixe de emitir títulos para o financiamento da dívida pública, usando os recursos para honrar os papéis que estão vencendo. O valor varia de acordo com o tamanho dos vencimentos mensais de títulos, mas, em média, fica em torno de R$ 100 bilhões.

O Tesouro confirma que já adquiriu todos os dólares necessários para pagar os compromissos da dívida externa no primeiro semestre de 2006. Mas, com as recentes captações externas em títulos e as compras de dólares no mercado interno, os analistas do mercado financeiro calculam que a reserva já seria muito maior e estaria próxima de cobrir as necessidades do ano inteiro.

A combinação das estratégias dá mais segurança para que o Brasil enfrente o ano eleitoral e se proteja contra mudanças de humor no mercado externo que possam interromper o fluxo de dinheiro para os países emergentes.

Em 2002, ano das eleições vencidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Tesouro utilizou o colchão que havia feito na época, o que safou o governo de enfrentar dificuldades ainda maiores do que as vividas às vésperas do pleito, quando o dólar chegou a bater em R$ 4 e os investidores demonstravam aversão a títulos de prazo mais longo devido às incertezas com o futuro do País.

"As condições macroeconômicas do ano eleitoral de 2006 são muito mais encorpadas do que foram em 2002. Naquela época, o superávit primário era menor, a composição da dívida, mais frágil, a inflação era maior e as contas externas eram piores. Hoje, temos condições econômicas mais consolidadas", disse o secretário-adjunto do Tesouro, José Antônio Gragnani. Na sua avaliação, não há risco de no ano que vem se repetir o que aconteceu em 2002 por conta das eleições.

Ele é categórico, porém, ao negar que o Tesouro tenha acelerado a formação das reservas extras por conta da aproximação do ano eleitoral. "Não estamos aumentando indefinidamente o colchão. Nós trabalhamos sempre com o prazo de segurança de 4 a 5 meses. "Não tenho receio além disso", disse Gragnani, que é responsável pela administração de R$ 937 bilhões das dívidas interna e externa.

O estrategista-chefe do banco BNP Paribas, Alexandre Lins, concorda que 2006 não deve repetir 2002 do ponto de vista eleitoral. "O ano que vem será muito mais tranqüilo, pois terá forte crescimento e a população não deve buscar uma candidatura populista. Além disso, entre as candidaturas possíveis há consenso em torno da necessidade de se manter o equilíbrio fiscal. Por fim, o ambiente internacional deverá ser bem mais favorável", afirmou.

Mas o economista acha positivo o Tesouro Nacional ter um colchão maior hoje do que tinha na eleição passada. "Desde a experiência de 2002, o Tesouro vem trabalhando com um colchão maior, pois viu que é mais prudente para se garantir e dar tranqüilidade ao mercado."