A ex-deputada pelo PT Maria da Conceição Tavares merece ser escutada quando pergunta, desiludida e irritada, se, em Brasília, todo mundo está de porre. Afinal, menos de um ano atrás, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva açoitava os juros altos como gaúcho mete espora na montaria e, ainda de quebra, exorcizava o que considerava excessiva preocupação do governo de então com a especulação dos mercados financeiros em detrimento do que dizia ser correto: a preocupação com a produção, o desenvolvimento, a geração de empregos e do bem-estar geral, sem esquecer da segurança pública e por aí vai. Seu discurso foi entendido e Lula viu as urnas cheias de votos.

Hoje, o presidente Lula e sua equipe, formada no mais alto degrau por companheiros de sua exclusiva confiança, praticam um discurso bem diferente – a começar pela polêmica mais acesa no momento que é a taxação dos inativos no bojo da reforma da Previdência. Prometendo mudar o Brasil, na verdade quem mudou até aqui foi o PT. E os companheiros que continuam insistindo no velho discurso correm o risco de expulsão a partir de um já iniciado processo para apurar questões éticas relacionadas a uma duvidosa fidelidade partidária. “Se mudei, qual o problema?”, pergunta um dos mais bem estabelecidos assessores do presidente Lula, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Digamos que algumas dessas mudanças operadas foram boas. E até saudáveis para a nação, já cansada de uma oposição sistemática. Outras, entretanto, ainda não conseguem convencer – nem à direita, nem à esquerda – que valeram ou valerão a pena. Os juros estão mais altos que antes; a preocupação com os tais mercados continua a mesma ou até maior; há mais desemprego que antes, insegurança idem; empresas continuam encolhendo e sumindo e, se pelo menos as exportações melhoraram, isso se deve exatamente ao jogo do mercado internacional, que aproveita um dólar ainda assustado pelo fenômeno eleitoral do ano que passou. Objetivamente continuamos a cultivar promessas, enquanto já fenecem algumas esperanças, como as do abaixamento geral da carga tributária ou, pelo menos, do desaparecimento da provisória CPMF.

Quando Conceição Tavares esmurra a mesa – como fez no famoso debate sobre “o governo da mudança e o novo modelo de desenvolvimento nacional” – ela não interpreta nada mais nada menos que o sentimento que já vem sendo externado por uma parcela ponderável dos eleitores de Lula. Nas salas de aula, País afora, já há professores e magistrados fazendo como ela: batem no peito assumindo o mea culpa pelo voto equivocado, diante de alunos estupefatos. Os motivos são múltiplos. A reforma da Previdência é um deles e, conforme resume a economista sem papas na língua, “é a chamada reforma do medo”. Quando ela terminar haverá mais vagas no mercado de trabalho, pois todo mundo vai se aposentar… De fato, num país onde mais da metade da população economicamente ativa está na informalidade, por qual motivo não envidar esforços maiores na ampliação do número de contribuintes? Ou da cobertura previdenciária? Mas… com a atual taxa de juros, também de fato, não haverá possibilidade alguma de fazer fundo de pensão complementar, como esgrima a militante petista.

Assim, juntando Conceição aos eleitores discordantes, companheiros dissidentes e a alguns ministros aqui e ali dissonantes (incluindo o vice-presidente da República José Alencar, ferrenho defensor da baixa dos juros), percebe-se que a principal oposição ao governo Lula está mesmo em casa. E pelos idênticos motivos que fazia do PT a principal pedra no sapato do governo anterior, cujos integrantes, pelo menos que se tenha conhecimento, não andavam de porre como agora sugere a destrambelhada Conceição.