A dúvida é se são quarenta por cento, cinqüenta, ou sessenta por cento. O governo diz que são, no máximo, 25%. Mas mesmo este número é alto demais. Estamos falando de assentados dentro do programa de reforma agrária que, mesmo formalmente proibidos, vendem seus lotes e benfeitorias depois de receber todos os recursos do governo para iniciar vida nova com suas famílias. Há lugares em que o percentual vai além dos sessenta por cento, segundo o ex-secretário da Agricultura de São Paulo, Francisco Graziano. No Pontal do Paranapanema – uma das áreas mais conflagradas em todo o Brasil – assentados garantem que há lugares em que sobram apenas dez por cento dos “pioneiros”. No Paraná, o próprio Instituto Nacional de Reforma Agrária – Incra admite que o comércio irregular de lotes atinge 32%.

Dificilmente um programa de reforma agrária fecharia com 100% dos assentados em estado de graça, isto é, felizes para sempre com a nova situação. A vida é dinâmica e alguns fatos inesperados são decisivos na mudança de rumos e planos de uma pessoa. Mas o que se está revelando ao País é um descalabro. Tão grande ou maior que aquele espetáculo das invasões anunciado e cumprido neste abril vermelho da violência no campo. Prova que alguma coisa está errada na seleção das pessoas e famílias. Algumas delas – e isso é dito desde o início – simplesmente não sabem o que significa lidar na terra e, mesmo treinados na hora da reivindicação, acabam desistindo da empreitada.

Mas as denúncias referem-se a coisas mais sérias, como o caso de gente que se infiltra no Movimento dos Sem Terra, acaba obtendo lotes diretamente ou através de terceiros, compra outros na seqüência, e se transforma em pequeno latifundiário a explorar a miséria alheia. Denúncia do jornal O Estado de S. Paulo fala até de um ex-prefeito envolvido no negócio de compra e venda de terras do programa de reforma agrária. Desconfia-se que a transferência irregular de lotes estaria ocorrendo sob as vistas grossas da autoridade responsável pelo programa, isto é, o Incra. Uma das desculpas dos assentados é que as terras concedidas são fracas demais para produzir. Pinóia. Com certeza desconhecem, entre outras coisas, os segredos da adubação.

Ao receber um lote de graça, os assentados recebem também recursos para benfeitorias – dinheiro dos cofres da União, drenado da sociedade na forma de impostos, taxas e contribuições. Dias atrás, logo depois da promessa de “infernização” por parte do líder máximo do MST, o presidente Lula anunciou a liberação de R$ 1,7 bilhão para agilizar programas atinentes à reforma agrária. No Supremo Tribunal Federal, um magistrado sugeriu que o governo, agindo assim, financia diretamente a baderna. A gasolina do ônibus que transporta os invasores – ironizou o magistrado – é paga pelo governo. Logo, o governo está incentivando a invasão, de um lado, enquanto de outro discursa em defesa da legalidade para acalmar fazendeiros invadidos. Age pior quando deixa livre ou omite-se de controlar o “negócio” em que se transformou o comércio ilegal de terras distribuídas sob financiamento de nossos impostos.

Não faz muito, vivemos a denúncia de que parte dos recursos repassados para cooperativas e outras entidades controladas pelos sem-terra estaria sendo desviada para financiar o próprio MST, em sua “tarefa social” de angariar mais soldados (alimentados pelo serviço de distribuição de cestas básicas, igualmente pagas com dinheiro do contribuinte) para a sua causa que já não se contenta apenas com a invasão de áreas improdutivas e abandonadas.

Há que haver um paradeiro nisso. Ter sensibilidade para os ingentes problemas sociais que assolam o Brasil não significa compactuar com um tipo de comportamento que está mais para os profissionais do far niente, vagabundos ou aproveitadores da caridade alheia, que de gente humilde, mas com vontade de trabalhar e progredir na vida. O Brasil, colonizado por valentes imigrantes de tantas cores, exige que o governo faça bem feito a sua parte, sem essa tolerância cada vez maior para a irregularidade, a ilegalidade, o abuso e a violência.