Não se trata de transporte público dos cidadãos comuns nas grandes cidades. Este é um problema grave por seu custo e má qualidade. Referimo-nos ao transporte de homens do governo, ministros, portanto homens públicos, em transporte de propriedade da nação, das Forças Armadas, que são públicas no sentido de que devem servir para a defesa do povo brasileiro. E são por ele sustentadas. Decretos permissivos vêm do tempo de FHC, mas como nem tudo o que seu antecessor fez Lula desmancha, ele pôs essas mordomias à disposição de seus ministros.

Muitos, felizmente nem todos, mesmo quando não têm nenhuma agenda oficial a cumprir fora de Brasília e apenas estão indo passar o fim de semana em casa, requisitam vôos de aviões da Força Aérea Brasileira. Viagens que custam muito e em dobro, pois levam os ministros e têm de voltar às suas bases, para depois ser chamados de novo, para buscá-los quando já reviram suas famílias. Seriam mordomias toleráveis, não fosse o fato de que, como ministros, têm moradias do governo, de graça, em Brasília, ou auxílio-moradia suficiente para pagar aluguéis de habitações confortáveis e até luxuosas.

Se um ministro mora em Brasília, como justificar que viaje por conta do povo, em avião da FAB, para seu estado de origem, para ver sua família e descansar nos finais de semana? Há ministros que usam e ministros que não usam essas discutíveis vantagens. Quem as considere ilegais e quem as considere legais. Mas poucos ou ninguém as considera moralmente justificáveis.

O assunto veio à tona porque a Aeronáutica fez um relatório de 250 páginas sobre o assunto. E também porque o deputado federal paranaense Luiz Carlos Hauly pediu explicações. Há ministros que têm pudores e não usam tais mordomias. Ricardo Berzoini, por exemplo, ex-Previdência e hoje Trabalho, fez em um ano apenas quatro viagens do gênero, e em todas não foi só visitar sua família. Também tinha agenda oficial e, só os compromissos que como ministro tinha de cumprir, justificariam o uso de aviões do governo. Mas outros usam e abusam do benefício, que é imoral, porque moram em Brasília e as viagens objetivam atender a interesses exclusivamente pessoais.

Seria de se perguntar por que o funcionário público comum, quando pega o ônibus ou o metrô para ir da repartição até sua casa e vice-versa, não tem direito a carro oficial. Os mais graduados usam os chapas-brancas, escandalosamente utilizados como privilégio. E o trabalhador, que pena para pagar as passagens, não teria também direito a algum transporte público com abatimento ou gratuito, bancado pelo poder público? Claro que não, pois mordomias são próprias dos grandes, dos mandões, da turma lá de cima.

Lula, que tanto se preocupa em desmanchar o que fez seu antecessor Fernando Henrique Cardoso e culpar sua administração por todos os males que o seu atual governo sofre e não pode ou não sabe resolver, bem que poderia acabar com esses decretos. Ministro tem de viver em Brasília, morando em casa do governo, própria ou com aluguel pago com o auxílio-moradia que recebe.

O exemplo da então ministra Benedita, que foi a Buenos Aires em viagem por conta do nosso povo para um encontro religioso, não deve se repetir. Nem continuar os encontros familiares fora da sede do poder, a menos que sejam por conta de quem os promove. O povo quer que os ministros fiquem em Brasília, lá trabalhem e produzam. E que sua produção não seja de desnecessárias e abusivas despesas.