São Paulo ? Os programas religiosos da TV Gazeta e um dos quadros do programa Zorra Total, da Rede Globo, estão sendo acusados de disseminar a intolerância e a discriminação contra as religiões de origem africana junto ao Ministério Público Federal. Uma representação assinada por diferentes entidades foi entregue em São Paulo na tarde de hoje (20) ao procurador regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo, Sérgio Gardenghi Suiama, pedindo "a instauração de procedimento para apuração de responsabilidades dos diretores, apresentadores e respectivas emissoras". Sauiama recebeu o documento das mãos dos representantes das entidades.

O documento de representação é assinado pelo Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira (Intecab), Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), pelo Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (Soues), Federação Interestadual União das Tradições e Cultura Afro-Brasileira (Fiutcab), União de Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil, Federação de Umbanda e Candomblé Maria Padilha das Sete Saias e pelo deputado estadual Sebastião Moreira Arcanjo.

"Nós estamos requerendo ao Ministério Público Federal, inclusive com o auxílio do Ministério da Justiça, que se possa monitorar esses programas para inclusive decretar infrações a regulamentos éticos, enfim, infrações legais, e apurar responsabilidades por esse tipo de crime, de danos causados às religiões afros", diz o redator do documento, Hédio Silva, advogado do Intecab.

Líderes das religiões afro-brasileiras estiveram presentes e disseram lutar pela igualdade entre os povos e a liberdade de culto. "Estamos reivindicando nada mais do que o nosso direito como cidadão de praticar e exercer uma religião" diz Pai Francelino Shapanan, líder religioso e membro do Intecab. "Nós queremos ter igualdade. Nós somos todos filhos de um Deus só. Então, nós queremos ser iguais a todos" explica Pai Milton Aguirre, presidente do Superior Órgão de Umbanda.

O deputado estadual pelo PT e presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Igualdade Racial, Sebastião Arcanjo, vê nesta ação "um caminho em que a Justiça possa servir como mediadora, no estado de direito, aonde nós preservemos a liberdade de expressão de opinião". Segundo procurador Sérgio Suiama, o documento será agora analisado. "Se de fato for confirmado que houve essa ofensa, vamos tomar o mesmo caminho" referindo-se à denúncia feita em dezembro do 2004. Na ocasião, as emissoras de TV Rede Mulher e Rede Record foram acusadas de veicular programas que incitavam à discriminação e o preconceito religioso, mas esse processo continua em aberto, sem julgamento, na 5ª Vara Cível de São Paulo.

Segundo o promotor Suiama "a doutora juíza determinou que a rede Record fosse ouvida e agora nós aguardamos uma decisão do poder judiciário sobre a concessão ou não do direito de resposta contra a Record". Ao se configurar um caso de ofensa, as entidades religiosas afro-brasileiras requerem um direito de resposta dentro da programação das emissoras. Presente ao evento, Pai Francelino Shanapan, que identificou-se apenas como "representante das religiões afro-brasileiras" fez uma declaração pela paz e defendeu que "a luta pelo diálogo deve prevalecer entre os sacerdotes de qualquer religião. Acho que a religião deve promover uma cultura de paz … nós só queremos viver em paz".