– Jorge, quem foi maior: Juscelino ou eu?

– É claro que você, Fernando. Juscelino tinha seus méritos, mas era um mero intuitivo. Você tem a intuição e o conhecimento.

– Mas padeci da solidão dos grandes homens. A mesma solidão que deve ter martirizado Cristo, Lenin, Gandhi e o nosso José Bonifácio.

– Tem razão, Fernando, e eu sei o que é essa solidão, pois conheço o Brasil. Assessorei Bonifácio e Juscelino, Pedro I e Café Filho, Deodoro e Jango; assessorei os conservadores mais empedernidos e os populistas mais irresponsáveis. Eu sou a história e lhe digo, do fundo do coração: não houve ninguém mais brilhante que você. Sua solidão foi a dos grandes homens.

– Não me confunda com essas figuras, Jorge. Com exceção de Bonifácio, eles tinham a visão do Brasil. Eu tinha o sentimento do mundo.

– Blair, Clinton, todos se curvaram a você, Fernando.

– Sérgio não me entendia. Antes de morrer, vivia me atazanando, querendo que eu me ocupasse de coisas banais do dia-a-dia, que decidisse. Um inferno, Jorge. Não nasci para decidir, mas para especular, no sentido filosófico do termo. Minha missão era entender o mundo, definir as grandes idéias, não me desgastar administrando conflitos.

– Decidir é coisa de gerente, não de intelectual.

– O mesmo acontecia com José, que me tirava a concentração cada vez que me ligava reclamando que as concessões que eu fazia a aliados políticos iriam estourar o déficit público. Pedro não me incomodava, nem Gustavo. Não tinham essa visão estreita de meus amigos pragmáticos. Sabiam que eu precisava de tranqüilidade para mudar o mundo.

– Os outros só enxergavam a árvore, não a floresta, Fernando.

– Justamente, justamente, era o que eu dizia.

– Você nasceu com a sabedoria dos grandes políticos, Fernando.

– Admito que esse estilo podia ter contra-indicações, mas a política é a arte das opções. Perdi Sérgio; José ficou agastado; perdi Luiz Carlos e José Roberto; perdi André, que me encantava. Meu partido falava mal de mim pelas costas, Também os conservadores, que me achavam um nome pesado demais. Disseram que o Brasil quebrou externamente, mas essa quebra me permitiu fechar o melhor acordo que um país quebrado já assinou. Diziam que quebrou internamente, mas me permitiu um discurso histórico, propondo sangue, suor e lágrimas, do mesmo modo que Churchill. Eu era esmagado pelas críticas que me apontavam como contemporizador.

– Era o preço a ser pago, Fernando.

– Onde foi que eu errei, Jorge? Deixei o País quebrado, sem estatais e com uma dívida interna enorme, só porque não superei o medo da decisão. Meu segundo mandato foram quatro anos de recessão e desemprego. Mas o País tinha que ganhar tempo para amadurecer.

– De fato, amadureceu, mas não se desenvolveu.

– No dia em que meus três amigos deixaram o governo, disse para mim mesmo: “A partir de hoje, não faço mais concessões”. Mas, no dia seguinte, tinha um café da manhã com os líderes da minha aliança, e não quis me comportar como intransigente. Aceitei a idéia de criar mais um imposto. Sei que não estava certo, em meio a um ajuste fiscal profundo. Mas tinha outra maneira de eu recuperar a tranqüilidade?

– Tá certo, Fernando, tá certo. Você foi indeciso, mas de uma maneira extremamente brilhante.

– Uma última pergunta, Jorge. Quem foi melhor: Juscelino ou eu?

– Você, Fernando. Agora, vamos ficar quietos, que o capeta está chegando para acender o fogo das 6 da tarde. E ele tem uma capacidade de decisão extraordinária.

P.S. – Além de deliciosas histórias da sua Poços de Caldas e de notáveis momentos da nossa música popular, Luís Nassif reúne, em O Menino do São Benedito e Outras Histórias, flagrantes da vida pública brasileira. O acima condensado – como homenagem ao autor – é um deles.

Célio Heitor Guimarães

é um cidadão que adora uma boa conversa ao pé do fogo.