Numa democracia, ninguém é candidato de si mesmo, principalmente se for à Presidência da República. Será candidato de correntes políticas, de partidos e não poderá dispensar as simpatias do povo. Ou dispor de muito dinheiro para uma campanha em que a compra direta ou indireta de votos, cabos eleitorais e partidos possa garantir a vitória. E, num rolo compressor, não esquecer da sempre eficiente arma da demagogia, conquistando a massa carente do eleitorado, no Brasil sempre majoritária, prometendo atender às suas justas reivindicações. Obtidas todas essas condições e logrado êxito nas urnas, resta o desafio de governar. E ter, com seu grupo, programas de governo e uma base parlamentar sólida, que garanta a aprovação das leis e reformas que precisem ser feitas.

Algumas dessas condições faltaram ao presidente Lula, mas, heroicamente, o torneiro mecânico nordestino, brilhante e persistente líder sindical, depois de repetidas tentativas chegou ao poder via um pequeno partido que ajudou a fundar, o PT. Merece admiração e aplausos, embora seja demais exigir que faça tudo quanto prometeu, de vez que nem imaginava quão difícil é governar.

Agora, acuado por dezenas de acusações de mau uso de dinheiros públicos e financiamentos ilegais da campanha que o elegeu, bem como de compra de apoios para montar uma precária maioria parlamentar, Lula se comporta como quem se sente pessoalmente atacado. Volta-se para as massas carentes, os trabalhadores, em discursos como o que pronunciou anteontem em sua terra natal, Garanhuns. Foi desafiador e disse que, se decidir ser candidato à reeleição, ?vão ter que me engolir?. Plágio óbvio de bordão de Zagallo.

Ninguém da oposição quer o ?impeachment? de Lula. Seria um baque muito doloroso ao frágil prestígio do País. E há quem considere o presidente, nessa história toda, inocente. Não teria praticado as maracutaias que pululavam ao redor de si. Seu mal teria sido ignorá-las, não sendo vigilante o suficiente, como compete a um presidente. A oposição e grande número de aliados de Lula, inclusive a recém-formada dissidência do partido constituída de sua ala esquerda, o que não quer é que o atual presidente dispute a reeleição. E, se disputar, que não vença.

Se, ao voltar-se com sua verborragia para o proletariado, Lula pretende dizer ao povo que existe uma elite que o abomina e quer o seu ?impeachment? ou interrupção de seu mandato, está vendo ?chifre em cabeça de cavalo?. Pelo contrário, as cabeças mais ponderadas da oposição querem preservar o seu mandato e, por isso, combatem a corja que o cerca. O que não desejam é que o povo, acreditando no seu eloqüente discurso, no qual diz que faz em quatro anos o dobro que seu antecessor fez em oito, lhe dê um novo mandato viciado com a ingovernabilidade, por falta de apoio político-parlamentar. O povo não sabe que o dobro de zero é zero e as estatísticas positivas que às vezes este governo apresenta em seu favor não passam sob o crivo de nenhum analista sério. O Brasil precisa de um governo honesto, competente e viável e há dúvidas se Lula e o PT têm condições de oferecer isso agora e por mais quatro anos.