Cada texto conduz o leitor por caminhos diferentes, caminhos esses que apresentam diferentes obstáculos e paisagens, exigindo, portanto, diferentes modos de apreensão por parte do leitor. E quando se trata de um mesmo caminho trilhado, cada leitor observará, inicialmente, o que lhe é familiar: uma flor, um pássaro, uma árvore. Em seguida, seu olhar será direcionado para o que ainda não é conhecido. Desse modo, como cada leitor possui um determinado conhecimento do mundo, diferentes interpretações de um mesmo caminho são produzidas por intérpretes diversos.

É o que podemos observar em ?O grande circo místico?, poema repleto de misticismo e transcendentalidade, publicado em 1938 pelo poeta Jorge de Lima em seu livro A túnica inconsútil. O poema trata da trajetória de uma dinastia circense – os Knieps. Esse argumento serve, na realidade, para construir uma grande metáfora da busca do absoluto, busca essa que finda com a levitação das gêmeas Helene e Marie em uma apresentação circense, representando o encontro com Deus.

O leitor que se aventurar por esse poema místico encontrará termos religiosos, símbolos e motivos bíblicos, metáforas e alegorias. Essa estrutura construída pelo autor compreende espaços de indeterminação de sentido, vazios que convidam o leitor a participar, buscando em seu repertório os conhecimentos adquiridos em outras leituras. E assim se dá a interpretação, que é a construção de sentidos para o texto poético.

Uma das formas de interpretar é transformar palavras em ações cênicas. Foi o que ocorreu com o poema ?O grande circo místico? em 1983, quando foi adaptado ao teatro pelo Balé Teatro Guaíra, numa montagem que uniu música, representação, balé, poesia e arte circense. O espetáculo apresentou a dinastia circense Knieps (ou a busca do absoluto) segundo a compreensão do coreógrafo, do diretor, dos bailarinos, do figurinista, do roteirista e dos compositores acerca do poema; um conjunto, portanto, de intérpretes a escrever um novo texto em outra linguagem, a linguagem do palco.

Envolvidos nesta ação cênica, nomes como Naum de Souza no roteiro, Carlos Trincheiras na coreografia, Chico Buarque e Edu Lobo na sonoplastia e a direção e bailarinos do BTG passaram a fazer parte da história do Teatro Guaira e fizeram do espetáculo um sucesso de público e crítica, não só pela exímia qualidade apresentada, mas também pela tentativa de popularizar o balé associando-o com o motivo popular circense e pelas múltiplas linguagens que integraram a apresentação: teatro, música, balé, circo e poesia.

O leitor do espetáculo, transformado em espectador, teve ante seus olhos um texto não mais de palavras, mas um texto cênico, com diferentes linguagens. Esse outro texto, diferente do poema, exige do leitor um outro modo de ver. Aciona outros repertórios e convida a outras intervenções.

Temos no teatro, portanto, uma possível forma de interpretação de um texto literário. Esse é um recurso interessante que pode ser utilizado por nós, professores, no ambiente escolar. Os alunos, participando de uma atividade de leitura como essa, serão convidados a acionar o seu repertório em diferentes situações. Num primeiro momento, serão levados a preencher os vazios do texto literário para lhe dar continuidade. Essa interpretação dos alunos pode suscitar uma peça teatral, que é um outro gênero textual que, como o literário, tem suas peculiaridades e faz exigências específicas de compreensão pelo leitor.

Transformando o texto literário em apresentação teatral, o aluno estará exercitando não só sua interpretação, mas o diálogo entre diferentes gêneros textuais, apreendendo as características próprias de cada um em sua produção e recepção, vivenciando o seu papel enquanto sujeito agente no momento da leitura. Além do mais, o ?fazer teatro? é uma ferramenta pedagógica que possibilita aos nossos alunos a interação com o grupo, o trabalho com a dicção e com as linguagens corporal, oral e musical, a perda da timidez e a desenvoltura exigida em situações de improviso. Fazer teatro é um meio de ampliar o repertório pessoal e cultural do educando.