A guerra está praticamente acabada. As forças da coalizão tomaram Bagdá e a Casa Branca já decretou o fim do governo de Saddam Hussein. Os americanos e ingleses já começam a pensar na reconstrução do Iraque. Mas há quem garanta que nem tudo está definido. Homens-bomba, em grande quantidade, alistaram-se para atacar os soldados inimigos. E agora deve ter início um outro tipo de guerra, a do terrorismo sem fim, como já acontece na luta infinita da Intifada entre judeus e palestinos.

O grande problema está na visão dos soldados anglo-americanos, que passam a ver todos os civis como uma ameaça e, na dúvida, inocentes levam bala sem piedade. Já temos várias notícias de mulheres e crianças mortas porque não obedeceram a ordem de parar. As casas dos iraquianos também estão sendo metralhadas como prevenção.

Tudo é visto como uma “guerra suja” travada por fanáticos suicidas, que traiçoeiramente agem, disfarçados de civis. Na visão do povo que apóia esse tipo de procedimento, isso é apenas um recurso bélico legítimo, mas antes de tudo um ato heróico, quando não de santidade.

Podemos lembrar não apenas os palestinos, iraquianos agora, mas também os camicases japoneses que ficaram famosos pelos seus atos de auto-imolação. Mas não podemos esquecer do guerreiro hebreu e cristão Sansão, que foi o primeiro de todos os suicidas.

É estranho que essa prática se torne cada vez mais utilizada por fanáticos, já que nenhuma das religiões prega abertamente o martírio como arma de guerra. A auto-imolação não pode ser encarada como um recurso apoiado por islâmicos, cristãos, judeus ou budistas. Estes homens e seus atos tresloucados quase sempre se movem pelas promessas de recompensa no além.

Esse clima deve persistir enquanto os anglo-americanos permanecerem no território iraquiano, mesmo com as manifestações vistas pela TV de apoio a invasão e do ódio apresentado por muitos ao regime de Saddam Hussein. E o maior perigo é que este sentimento se espalhe por todo o mundo, estimulando novos e maiores atentados como o que aconteceu no 11 de setembro no World Trade Center.

Passamos a viver agora uma nova fase de medo onde as pessoas fazem a justiça pelas suas próprias mãos e vão dizimando vidas, atentando cada vez mais contra a paz que tanto buscamos.

Quem disse que a guerra acabou, pode estar redondamente enganado. Paira no ar ainda a dúvida do fracasso tão humilhante das tropas de Saddam, a maneira rápida e praticamente pacífica em assumir um revés e a incógnita maior, que é o paradeiro do líder, desaparecido por encanto, como Bin Laden, outro inimigo adormecido.

Isso para não falarmos das ameaças que ainda são alimentadas pelos americanos contra a Síria, Irã e Coréia do Norte. Tudo leva a crer que a guerra não acabou, que é interminável, bem ao gosto de Bush, Blair e seus asseclas. Agora começa a perseguição às armas químicas que a ONU não teve capacidade de achar e que os anglo-americanos garantem que existem, contra os desmentidos sistemáticos dos iraquianos. Ou essa teria sido apenas uma desculpa da coalizão para se apoderar do petróleo inimigo? Só o tempo para nos responder essas dúvidas.

Osni Gomes (osni@pron.com.br) é editor em O Estado e escreve aos domingos neste espaço.