“Não concordo com nenhuma das palavras que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-las.” Heloísa Helena é uma nordestina franzina, cabocla, vinda das camadas pobres da população de Alagoas, que já é um dos estados mais pobres do País. Professora de profissão, hoje é senadora da República pelo PT. Do Partido dos Trabalhadores é figura histórica, com décadas de militância. Não apenas militância com contribuição social, mas marcada nos piquetes, lutas contra a polícia, sofrimento físico e moral. É uma mulher de idéias e posições que sempre defendeu intransigentemente, expondo sua própria integridade física. Acredita em seus ideais de esquerda e não tem papas na língua.

Foi cogitada para ser candidata a governadora de Alagoas, nas últimas eleições. No plano nacional, o PT fez alianças muitas, a principal com o PL, um partido considerado de direita. Teria sido o suficiente para desgostar Heloísa Helena. Mas aconteceu algo pior ainda. O PL alagoano decidiu apoiar a candidatura de Fernando Collor, o defenestrado presidente que escreveu uma das páginas mais negras da história brasileira. Heloísa Helena rebelou-se, perdeu sua oportunidade de ser candidata a governadora e agora cumpre sua segunda parte do mandato de senadora que conquistou nas urnas.

Essa petista de quatro costados, de primeira hora e de permanente e eloqüente coerência, está passando por novas dificuldades, por dizer o que pensa e pensar como sempre pensou, desde que se filiou ao PT, então um partido de esquerda.

Na votação para a presidência das duas casas do Congresso, foi feito um acordo para eleger José Sarney presidente do Senado. Ela negou-se a sufragar um nome que sempre combateu e considera representante das velhas oligarquias nacionais. Não votou contra, mas esteve ausente no ato de votação.

Na escolha de Meirelles para a presidência do Banco Central, também se opôs porque o considera um representante do neoliberalismo do governo FHC. E expressa-se sempre contra o que considera o neoliberalismo petista e sua política econômica, que acha ser a continuidade da comandada por Pedro Malan.

Há poucos dias, em entrevista corajosa, entre outras coisas atacou as idéias de reforma da Previdência, dizendo que sente nojo quando houve falar em déficit, uma vez que o poder público, como patrão, nunca contribuiu com sua parte, enquanto o funcionalismo o faz mensal e compulsoriamente. É uma rebelde com causa. A velha causa do PT histórico. É certo que o PT mudou e também mudou sua cúpula, evoluindo, aprendendo nos muitos anos de batalhas, como fez questão de frisar o próprio Lula, quando candidato. O idealismo poético de esquerda foi substituído pelo realismo, o pragmatismo que a situação atual do País e do mundo exigem. As concessões de campanha não eram só para ganhar eleições. Começam a comprovar-se uma mudança efetiva também para governar. Por sua rebeldia, Heloísa Helena foi ameaçada de ser expulsa do PT. Chegaram a cogitar de expulsar todas as alas mais à esquerda. Afinal, parece que chegaram a um acordo: ela será apenas censurada por quebrar a disciplina partidária.

A linha deste jornal nunca coincidiu com as posições mais extremadas da senadora Heloísa Helena. Mas não podemos negar, nesta hora e nestes episódios, nossa admiração pela coerência e fibra da aparentemente frágil nordestina. É de matéria e espírito como o seu que se fazem os heróis.