Cada deputado federal ou senador custa ao País, por baixo, cerca de sessenta mil reais mensais. É o que se diz em Brasília sem contestação. Estariam aí incluídos os recursos depositados diretamente na conta de cada parlamentar, mais os benefícios diretos e indiretos de que gozam para bem desempenhar a nobre tarefa para a qual foram eleitos. Na última temporada, poucos deles estavam em seus locais de trabalho. O feriado de Tiradentes dividiu a semana ao meio e, assim, a folga foi geral para gáudio de nossa representação oficial.

Na quinta-feira passada, a televisão mostrou o plenário da Câmara dos Deputados completamente vazio. O do Senado às moscas, fechado. Uma cena que se prolongava desde a quinta-feira da semana anterior, para dizer o menos, e que durará até a terça que vem, já de tarde, quando inicia a semana parlamentar de apenas três dias úteis. Para tentar explicar o inexplicável, teve deputado que ousou repetir a velha ladainha diante dos microfones: o serviço de um deputado não se restringe ao plenário, nem ao bate-ponto nos gabinetes. Ok, pode ser verdade. Mas então para que fazer convocação extraordinária nos meses de recesso, com pagamento em dobro, se eles poderiam trabalhar em suas bases, vagamundos de sempre, dando tapinhas nas costas dos eleitores e organizando a próxima campanha eleitoral o ano inteiro?

Note-se que o debate sobre a redução das chamadas férias parlamentares (noventa dias em dois períodos) caiu outra vez em desuso. Com certeza só vai voltar à cena na véspera da próxima convocação extraordinária, com pauta cheia de trabalho não realizado em período de atividade normal. E o contribuinte pagará, outra vez, a conta. E continuará reclamando pelas reformas que não acontecem.

O pior exemplo é, sempre, o que vem de cima. O governo não vai bem, todos percebem. E o Congresso Nacional, que poderia se esforçar um pouquinho para melhorar as coisas, até aqui, além de não ajudar, contribui para piorar. Seja fazendo oposição muito fraca aos repetidos erros do Executivo, seja dando sustentação a posições equivocadas, como essa couraça atirada sobre o Waldogate, do qual já nem mais se houve falar. Enquanto se forma um dilúvio de dúvidas sobre a capacidade de o governo governar, paralisado pelo “abril vermelho” do MST em sincronia com greves do funcionalismo em setores estratégicos (Polícia Federal, Receita Federal, Previdência Social), com a ação de índios amotinados em torno do negócio das pedras, com o ataque de traficantes encanzinados no tráfico das drogas e com o recrudescimento do desemprego de cidadãos desesperados, e a classe política nem aí.

Lá fora, importantes publicações como The Economist, de Londres, já se preocupam com as promessas de Lula, que “começaram a parecer vazias”. Na CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, teme-se que a frustração mate a esperança. Mais cedo do que seria possível imaginar. E o medo, que o PT se gaba de ter vencido nas últimas eleições, dá um salto para cima de 70% na planilha gráfica das últimas pesquisas do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. É o mais importante índice desse início de século em quase todas as cidades brasileiras. Onde há medo quase tudo fenece. Inclusive a disposição objetiva de viver.

A aparente tranqüilidade do Congresso Nacional tem uma explicação. Não é oficial, mas está na cara de todos: o loteamento de cargos como instrumento de barganha para manter, como virou moda dizer, a governabilidade. Dessa forma, o governo finge que governa, e os partidos fingem que exercem suas prerrogativas constitucionais no Congresso. O povo e suas aflições não contam. Uma pena, pois tudo isso contribui ainda mais para aumentar esse terrível sentimento de frustração e desesperança. Sem falar no prejuízo causado à causa da democracia. Afinal, pergunta-se o cidadão indignado com tanta folgança, um Congresso que não age nem reage faria falta?