Brasília (AE) – O empresário Marcos Valério Fernandes de Souza guardou para a véspera do depoimento do deputado José Dirceu (PT-SP) no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara a prova que os advogados dele dizem ser definitiva para demonstrar que o ex-chefe da Casa Civil era próximo a ele e sabia dos empréstimos que fazia ao PT. Ele contou que, logo depois da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi procurado por Dirceu, que lhe fez dois pedidos pessoais.

O primeiro, ele resolveu com um telefonema para o presidente da Brasfrigo e principal acionista do Banco BMG, Flávio Guimarães (pai de Ricardo Guimarães, principal executivo do banco), e visaria a obter um emprego para uma das ex-mulheres de Dirceu, a psicóloga Maria Angela Saragoça. O ex-ministro tem uma filha de 16 anos com Angela.

A ex-mulher foi empregada na única agência do BMG em São Paulo, na Alameda Santos, próximo à Avenida Paulista. Para conseguir o emprego, Dirceu teria conversado com Flávio Guimarães

Estes esclarecimentos de Valério foram publicados hoje pelo jornal "Correio Braziliense".

Num segundo telefonema, Valério pediu ao banqueiro José Augusto Dumont, ex-vice-presidente do Banco Rural (já falecido), que concedesse um empréstimo para que Dirceu comprasse um apartamento para a ex-mulher, na região do Jardim Paulista, em São Paulo. De acordo com a informação dos advogados de Valério, o empréstimo seria de R$ 200 mil, mas o Banco Rural só confirmou R$ 42 mil.

A descoberta de um canal tão direto entre Dirceu, Valério e os diretores dos dois bancos provocou impacto entre os integrantes da CPI dos Correios e também junto aos membros do Conselho de Ética da Câmara, onde Dirceu prestará seu depoimento amanhã (02). Até agora, Dirceu tinha dito que mantivera pouquíssimos contatos com Valério ou com diretores dos bancos BMG e Rural.

Nos contatos com os bancos, ele assegurou que todas as conversas tinham sido solicitadas por essas instituições e nunca trataram sobre empréstimos para o PT. Sobre empréstimos para uma de suas ex-mulheres, como foi revelado agora, não se tinha qualquer conhecimento.

Para parlamentares da CPI, a descoberta dessas relações mostram que Dirceu ainda tem muitas explicações a dar sobre esse assunto. "São informações novas e que contradizem os dados que o ex-ministro vinha apresentando até agora. Se tudo isso se confirma, ele precisará explicar o assunto", avalia o líder do PFL na Câmara, deputado Rodrigo Maia (RJ).

Por conta dessas revelações, deputados e senadores do PSDB passaram a tarde reunidos para definir uma estratégia a ser adotada durante depoimento de Dirceu no Conselho de Ética. O deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), que integra a CPI dos Correios e o Conselho de Ética, avalia que a renúncia ao mandato do deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP) deu uma dimensão política e não apenas contábil às investigações e acrescentou que é neste clima que o ex-ministro deverá dar o tom de seu depoimento. Para ele, Dirceu colocará em jogo o seu destino no PT e seu grau de relacionamento com o presidente Lula.