O perigo dos postos e depósitos de combustíveis para o ambiente coloca em risco cerca de 5 milhões de pessoas no País. Uma população que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) estima viver perto das 6 mil áreas no Brasil com solo contaminado por substâncias cancerígenas despejadas por indústrias, mineradoras e postos de combustíveis.

Em São Paulo, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal concluiu que a Prefeitura da capital pouco sabe sobre a situação dos postos e pouco faz para fiscalizá-los. No País, a situação não muda muito. Assim como a Prefeitura de São Paulo e o governo do Estado não tem, de acordo com a CPI, dados precisos sobre áreas e pessoas afetadas pelo problema, o governo federal desconhece a situação exata do subterrâneo.

Além disso, ninguém se arrisca a dizer quantos brasileiros bebem água com benzeno, composto da gasolina que em contato com o corpo causa leucemia, má formação embrionária, distúrbios psicológicos e parada cardíaca. Um risco real para pelo menos 2,5 milhões de trabalhadores, entre petroleiros, metalúrgicos e frentistas.

O mapa da contaminação do solo não inclui os 32 mil postos de gasolina em funcionamento no País. O relatório da CPI constatou vazamento em 115 dos 800 revendedores de combustíveis de São Paulo. Há registros de áreas contaminadas em 89 municípios paulistas. A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) diz que são 102 terrenos encharcados de substâncias tóxicas na capital paulista.

Uma das razões disso seria o envelhecimento dos tanques. A vida útil de boa parte dos instalados no Brasil durante os anos 70 está no fim. Foi nessa época que o mercado de combustíveis teve maior crescimento. ?No caso do setor de combustíveis, não existe preocupação com a saúde pública?, reconhece o coordenador-geral de Vigilância Ambiental e Saúde da Funasa, Guilherme Franco. ?Ninguém assume nada. As coisas só andam no papel.?

Para funcionar, os postos precisam ter licença das secretarias estaduais de Meio Ambiente, responsáveis pela fiscalização ambiental da área. Sem estrutura, a Funasa e as secretarias de Saúde só entram no jogo quando pessoas foram atingidas ou há indícios de contaminação. Franco defende programa em parceria com Estados e municípios para dimensionar a tragédia.

O debate sobre contaminação de solo ocorre há tempo nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, a legislação sobre o setor começou a ser editada há dois anos.

A situação por aqui é complexa especialmente no caso de acidentes com combustíveis. A gasolina vendida no País é misturada ao álcool. ?Com essa mistura, o benzeno tende a se espalhar mais na água do subsolo?, explica Henry Corseuil, professor da Universidade Federal de Santa Catarina. Ele desenvolve há dez anos tecnologia para recuperar áreas degradadas.

A 15 quilômetros do centro de Brasília, ambientalistas estão preocupados com a descoberta de que durante a última década moradores beberam água contaminada por combustível. O poço de 12 metros que abastece a área foi atingido por resíduos do Posto Brazuca, na cidade de Sobradinho. ?Até o resto das nossas vidas vamos ser monitorados?, reclama o médico Edison Saraiva, de 53 anos. Foram atingidas quatro famílias.

Ana Beatriz Guedes, 40 anos, mulher de Saraiva, foi uma das pessoas contaminadas. Ela sofre náuseas, dor de cabeça e aumentou o peso corporal excessivamente nos últimos meses, características de vítimas de substâncias derivadas de gasolina. A família teme o futuro do menino Arthur, de 1 ano, neto de Saraiva. ?Só vamos saber se Arthur é infértil lá na frente?, ressalta o avô do bebê.

Por meio de nota, a BR Distribuidora, marca da Petrobras  afirma que a contaminação foi causada por vazamento numa tubulação do Posto Brazuca. A empresa diz fornecer água por carros-pipas e uma equipe médica da companhia passou a fazer o acompanhamento de 19 pessoas vizinhas ao posto.

Não foi constatada, segundo a empresa, contaminação em outros poços do tipo na região. A empresa levou as famílias para um hotel da região e vai pagar hospedagem a eles até que a área seja descontaminada, o que deve ocorrer em três meses.

A companhia informa que irá recuperar o lençol superficial. O trabalho levará dois anos. A nota ressalta que desde junho prossegue o trabalho de remediação ambiental do lençol freático. ?Uma equipe médica determinou a inexistência de qualquer risco com relação ao contato com o solo, ou relacionado com a inalação de vapores do solo?, informa a empresa.