O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, prossegue dando asas a seu inigualável tino de prestidigitador da opinião pública, ocupando desde a posse do terceiro mandato consecutivo a primeira página de todos os jornais importantes e noticiários de televisão em escala planetária.

Esse protagonismo é decorrente do desejo de acrescentar à revolução bolivariana, algo ainda indefinido, como dizíamos ontem, o adjetivo ?socialista?. Muitos analistas tiveram dificuldade em compreender o real significado da tal revolução anunciada por Chávez, mas, diante da manifestação do presidente reeleito, já principiam a estimar o verdadeiro valor de face da moeda até então dissimulada.

O primeiro impacto veio com o anúncio da nacionalização da companhia telefônica que atua em território venezuelano, conhecida pela sigla Cantv, assim como de todo o sistema elétrico do país e inúmeras companhias estrangeiras nele instaladas. Os efeitos da tormenta foram imediatamente acusados e, em apenas dois dias, a Bolsa de Valores de Caracas despencou 38% na cotação dos principais papéis negociados no mercado acionário.

Para o investidor estrangeiro, as intenções do presidente da Venezuela foram logo percebidas, pois, no ano passado, o Banco Central anotou um investimento negativo de US$ 778 milhões. Ou seja, quem pôde se apressou a retirar dinheiro do país caribenho. A volúpia chavista mostra fôlego de maratonista mediante o cancelamento da concessão de funcionamento da maior rede nacional de televisão, segundo o catecismo do guia genial do povo venezuelano, culpada do pecado mortal de propagar e defender abertamente o golpe desfechado contra o presidente pela instituição que, no Brasil, poderia ser comparada à Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Para atenuar o estrago, sobretudo quanto ao ?socialismo do século XXI?, o governo plantou declarações sobre o pagamento de justa indenização a todas as empresas nacionalizadas na Venezuela. Mas o estopim está aceso, de modo que poucos se aventuram, nesse momento, a enunciar hipóteses sobre o futuro imediato.

Diante da perspectiva toldada pelo manto de inquietação, é inevitável o sentimento de ansiedade quanto à evolução dos fatos. Há os que, aprofundados em grosso pessimismo, vislumbram no autoritarismo chavista um explícito viés ditatorial.