Realizou-se em Curitiba o seminário Violência e Saúde Pública, reunindo especialistas e autoridades do Sul do País. Já o nome do encontro, que contém sua abrangência, chama atenção. Violência e Saúde Pública, à primeira vista, não são temas que se relacionam diretamente. Mas se relacionam, e muito, conforme ficou provado pelas próprias conclusões do seminário. A violência está sendo considerada caso de saúde pública porque um terço dos recursos destinados à saúde é aplicado no tratamento de traumas causados pela violência. A violência é a segunda maior causa de mortes no País, logo depois das doenças cardíacas. No Paraná, a causa mortis líder é o trânsito, contrariando o fatídico ranking nacional.

Há poucos dias condenamos movimentos objetivando o afrouxamento da aplicação do Código de Trânsito, o perdão de multas e uma campanha contra a punição de motoristas que andam em alta velocidade, através de meios mecânicos, os chamados pardais que fotografam os infratores. Entendemos que antes de afrouxar, o que é preciso é apertar para que a aplicação rigorosa das leis de trânsito iniba os infratores em potencial e puna os que infringem. Está aí uma razão incontestável: aqui, o trânsito é líder como causa de mortalidade.

Quanto a ser um problema de saúde, o fato de um terço das verbas destinadas ao setor ser aplicado no tratamento das vítimas, a maioria de trânsito, não deixa dúvida. E isso acontece num país em que o atendimento à saúde dos cidadãos é precário, quando não inexistente, faltando médicos, leitos e sobrando longas filas de gente em busca de socorro.

Ao verificarmos que menos violência, motoristas mais responsáveis e autoridades mais enérgicas na identificação e punição de infratores permitiriam reduzir em muito os problemas de saúde, em especial dos mais carentes, que se socorrem no sistema de saúde pública, passamos a entender por que é preciso aplicar uma política de tolerância zero. Tolerância zero contra a violência, seja ou não de trânsito.

O seminário realizado em Curitiba concluiu que uma melhor distribuição de renda, o combate ao excesso no uso de bebidas alcoólicas, criação de áreas de lazer e investimentos em educação são caminhos indicados para a redução da violência. Na raiz do problema está a questão social e dela resultam a carência educacional, o abuso de bebidas e o comércio de drogas, a falta de recreação para as crianças e jovens das camadas mais pobres e agora se revela que também faltam recursos para atendimento à sua saúde. Recursos que são gastos no atendimento de vítimas, principalmente de trânsito.

Chega-se a imaginar uma medida extrema, incabível num país com pretensões de ser civilizado: a negativa de atendimento a infratores das leis de trânsito e outras, principalmente das disposições do Código Penal. Dirigia em velocidade excessiva e causou acidente? Dane-se! A sociedade não vai gastar dinheiro para socorrer quem infringe de propósito suas normas de proteção.

Evidentemente que é uma hipótese absurda. Tão absurda quanto alguém entender que é escusável atentar contra a própria vida e a vida alheia sem nenhum motivo que dirima responsabilidades. Mais e melhor polícia, leis mais enérgicas e Justiça rigorosa e mais célere são providências que se fazem urgentes. Ajudam, mas não resolvem. O seminário aponta muito mais que precisa ser feito.