A comunhão internacional assiste com preocupação as cenas lamentáveis da violência que explodiu nas cidades de Damasco (Síria) e Beirute (Líbano), no último final de semana, quando manifestantes islâmicos incendiaram os prédios onde se localizavam as delegações diplomáticas da Dinamarca, Noruega, Suécia e Chile.

A polícia teve de entrar em ação para conter a fúria da multidão e, nos entreveros, uma pessoa foi morta e dezenas foram levadas aos hospitais com ferimentos.

O motivo da explosão popular está na publicação, em jornais europeus e, ao que parece, logo em jornais norte-americanos, das charges consideradas ofensivas ao profeta Maomé, publicadas originalmente pelo diário dinamarquês Jyllands-Posten. Nas caricaturas, o profeta é mostrado carregando uma bomba no turbante.

Importantes publicações da Europa e dos Estados Unidos saíram em defesa da liberdade de expressão ao afirmar que não existe nenhum código ético que obrigue estados leigos a obedecer prescrições de caráter religioso. A resposta das populações islâmicas não se fez esperar e a violência voltou às ruas.

Os governos da Dinamarca e Noruega aconselharam seus cidadãos residentes nesses países a deixá-los rapidamente porque ninguém pode afiançar a contenção da escalada da violência. Uma igreja cristã maronita da capital libanesa foi apedrejada por um grupo de muçulmanos, revoltados com a agressão a Maomé.

Uma represália no mesmo tom da charge dinamarquesa, igualmente de péssimo gosto e inaudita ofensa a toda uma comunidade, foi exibida no site da Liga Árabe Européia (LAE): uma imagem mostra Adolf Hitler e Anne Frank juntos numa cama.

Abstraída a discussão de fundo teológico que a questão permite e as razões que assistem muçulmanos de se sentirem agredidos pela exposição da imagem de Maomé, proibição radical do Corão, bem assim as alegações em prol da liberdade de expressão garantida pela separação Igreja-Estado não se concebe, entretanto, o retorno das cenas degradantes proporcionadas pela violência levada ao extremo da barbárie.

O mundo já pagou sua quota de sofrimento gerado pelo ódio religioso entre semelhantes. É repulsivo constatar, na entrada de novo século, que os homens estão cada vez mais dominados pela intolerância, ao invés de procurarem a convivência harmoniosa e civilizada.