A associação das drogas com a violência tem trazido cada vez mais o resultado morte. A afirmação é confirmada pelos números divulgados pela Delegacia de Homicídios. Nos sete primeiros meses do ano (212 dias) foram registrados, em Curitiba, 265 homicídios. Uma média superior a 1,2 morte/dia. Desse total, o delegado Stelio Machado, titular da DH, informa acreditar que cerca de 75% dos assassinatos estão ligados direta ou indiretamente ao tráfico ou consumo de drogas lícitas ou ilícitas. Os motivos para os crimes, no mundo paralelo das drogas, são os mais diversos: disputa por pontos de distribuição de tóxico; dívidas de usuários junto a traficantes; rixas, além de delitos cometidos graças à alteração de comportamento por parte do usuário, que fica mais agressivo.

Os bairros onde os crimes aconteceram com maior incidência estão localizados em regiões periféricas de Curitiba. O mais violento é a Cidade Industrial (CIC), onde foram registrados 39 assassinatos. Seguido do Cajuru (31), Uberaba (25), Boqueirão (13), Parolin e Tatuquara (11). No centro da cidade ocorreram 12 homicídios.

Não causa estranheza que são nesses bairros (exceto centro) onde estão as menores concentrações de renda. Dentro deles situam-se algumas vilas conhecidas pelo intenso tráfico de drogas. Como exemplo dessas “coincidências” pode-se citar a Vila Nossa Senhora da Luz (CIC), Vila Trindade (Cajuru) e Vila Icaraí (Uberaba). As três estão localizadas nos bairros mais violentos de Curitiba.

Organização

A falta de oportunidade de trabalho associada ao “esquecimento” do Estado na criação de um infra-estrutura razoável para essas vilas (baseada nos pilares da segurança, saúde e educação) fez com que nestes locais se instalassem os famosos comandos ou estados paralelos. E, quando o Estado por direito tomou consciência dessa realidade já era tarde demais. O resultado é a violência crescendo todos os dias nessas regiões.

Os jovens são os alvos preferidos, recrutados pelo comando paralelo, a fazer parte do crime organizado. Entenda-se por crime organizado não apenas o tráfico de drogas, mas todos os delitos associados a ele, como furtos e roubos, por exemplo. E é através dessas atividades de contravenção penal que são gerados recursos para a manutenção do estado paralelo.

A Tribuna já denunciou, exaustivamente, vilas onde o poder do tráfico comanda a vida de pessoas e substitui as atribuições do Estado legal, fornecendo “empréstimos” de dinheiro e favores assistencialistas aos moradores da região. Essa é a forma utilizada pelo crime organizado para manter o controle e impor suas próprias leis.

Mortalidade

Como os jovens estão mais suscetíveis à entrada no mundo das drogas, eles também correspondem à maior percentagem nas estatísticas de morte. Mais de 70% dos homicídios registrados entre janeiro e julho, em Curitiba, vitimaram jovens entre 15 e 35 anos. Das 265 mortes, 190 estão dentro dessa fatia (ver quadro).

Os dias mais violentos da semana também correspondem aos dias onde há maior concentração de jovens nas ruas. Pelas estatísticas, domingo (incluindo madrugada sábado/domingo) é o dia mais violento, com 63 casos, seguido de sábado, com 52; quarta-feira (37); sexta-feira (34); quinta-feira (29); terça-feira (27) e segunda-feira (23).

Propagandas são ineficazes

A prevenção ao uso de drogas direcionada principalmente aos jovens é o grande desafio a ser enfrentado pelas autoridades oficiais, entidades não-governamentais e comunidades em geral. O mal das drogas não atinge apenas usuários e dependentes, mas todos aqueles que convivem ao redor, principalmente familiares. Os entorpecentes se constituem atualmente num mal social epidêmico e deve ser tratado como tal. Entretanto, uma importante arma que o Governo possui no combate à proliferação das drogas está sendo mal utilizada.

Um estudo realizado pela professora de Comunicação Social da PUC-PR Arlene Sant?Anna revela que as campanhas preventivas veiculadas pelas emissoras de televisão no País não atingem o público-alvo como deveriam e, o pior, não informam. Essa foi a conclusão da tese de mestrado da professora defendida na Universidade de São Paulo (USP) onde foram analisados 20 anúncios do período de 1996 e 1997.

Falta informação

Para ela, a eficiência das propagandas televisivas voltadas à prevenção ao uso de entorpecentes deve ser questionada. “Do jeito que são feitas não fazem efeito. Fogem da realidade e não informam. E a informação é o mais importante”, explica a professora. Pelos estudos, o enfoque dado nos anúncios foge à compreensão da grande parte do público que deveria ser “tocado” pela mensagem: a classe baixa. “É essa classe que tem o contato mais direto com o mundo das drogas”. Os jovens da periferia são os que convivem diariamente com traficantes, usuários e atravessadores de entorpecentes. Eles interagem nesse meio. Entretanto, a maioria das propagandas é voltada aos usuários de classe média e sobre o que eles têm a perder com o uso de tóxicos.

O caminho adotado pelas propagandas vai no sentido oposto ao público que realmente se informa através da televisão, que são as classes C e D, conforme dados do trabalho de Arlene. Para a professora, o pior erro que vem sendo cometido nesses anúncios é que eles na realidade não previnem, não expõem informações aos jovens. “As propagandas não trazem, por exemplo, informações mínimas sobre como e onde procurar tratamento para o seu vício. Elas não esclarecem nada e usam uma linguagem punitiva, intimidadora em meio a produções fantasiosas que utilizam metáforas ao invés de atacar direto o problema”, explica a professora. Das 20 propagandas estudadas, metade aconselhava os telespectadores a evitar a experiência e o restante incitava o usuário a abandonar o uso. Mas nenhuma era explicativa.

Erros

As propagandas recentes quem tem o slogan “Quem usa drogas financia a violência” também são ineficazes e pecam no mesmo problema das campanhas anteriores. “Da maneira como foi feita essa propaganda, eles colocam a culpa do problema do tráfico nos usuários, o que é um absurdo. O problema é bem mais amplo”, diz.

Outra novidade mostrada no estudo é que a grande maioria das campanhas de prevenção às drogas é desenvolvida pelo governo. É idealizada pela organização não-governamental (ONG) Associação Parceria contra as Drogas (APCD) que segue um modelo americano de produção. “A ONG é incentivada pela embaixada norte-americana, que propôs a um grupo de empresários brasileiros a realização de uma campanha associada à Partnership for Drug-Free America, entidade americana”, afirma Arlene. A mesma prática mercadológica é compartilhada por países como Argentina, Chile, Venezuela e Porto Rico. Essa prática seria um dos motivos pelo qual a linguagem utilizada não funciona nos anúncios. São interesses e visões diferenciadas dos países.

Prevenção é a melhor defesa

Os dados apurados comprovam a conexão existente entre drogas, o mundo do crime e mortes. Partindo da premissa de que a prevenção é a forma mais eficiente de combate a propagação ao uso de entorpecentes, a necessidade de orientar as pessoas de como lutar contra esse problema torna-se primordial. Infelizmente, a orientação aos jovens ainda está longe de se tornar uma prática comum. Para a psicóloga e policial federal aposentada Elismar Santander, a escola deve ser o ponto de partida para o desenvolvimento de uma cultura de informação sobre prevenção. “A escola é a instituição que pode fazer a diferença. É o agente dinamizador de processos preventivos. E a grande maioria das pessoas já freqüentou por algum período o processo educativo”, salientou.

Baseado-se nessa idéia, Elismar lançou o livro “Em Defesa da Vida: Um Programa de Prevenção contra o Uso de Drogas na Escola, na Família e na Comunidade”. A obra serve como uma cartilha que ensina aos educadores e formadores de opinião como devem se posicionar sobre o assunto prevenção ao uso de drogas para jovens. A obra educativa nasceu do trabalho voluntário que a escritora fez durante nove anos analisando comportamento de jovens em comunidades da periferia de Fortaleza, capital do Ceará, cidade do mesmo porte que Curitiba.

Crime reduz população masculina

Nas próximas décadas o Brasil será um país composto em grande parte por uma população idosa e predominantemente feminina. Essa é mais uma conseqüência do estado violento no qual se vive atualmente. As mortes violentas ou externas atingem principalmente o público jovem e masculino, onde destacam-se os óbitos causados por envolvimento em acidentes de trânsito e homicídios.

De acordo com o delegado Marcus Michelotto, ex-titular da Delegacia de Delitos de Trânsito (Dedetran), é predominante o número de mortes de homens, em relação a mulheres, em acidentes de trânsito e também em casos de embriaguez ao volante. Entretanto, a idade não é um diferencial. “É praticamente igual a percentagem de mortes no trânsito envolvendo jovens e homens mais velhos”, explica o policial.

Outra evidência que comprova o maior envolvimento de homens em mortes violentas pode ser retirado dos dados estatísticos da Delegacia de Homicídios. Até o final de julho, em Curitiba, das 265 vítimas, 190 tinham idade entre 15 e 35 anos e apenas nove delas eram mulheres. Na contagem geral foram assassinados 242 homens contra 23 mulheres.

A grande mortalidade de jovens por causas violentas está preocupando o governo federal. Durante a abertura da 3.ª Conferência Executiva de segurança pública para a América do Sul -que aconteceu no último dia 28 de julho, em Belo Horizonte -, o Secretário Nacional de Segurança Pública, José Eduardo Soares, fez um alerta sobre a situação caótica vivida no Brasil, afirmando que o país é o líder mundial em mortes violentas entre jovens. “Estamos assistindo a um genocídio autofágico, em que o algoz e a vítima têm o mesmo perfil. A situação é tão preocupante que o déficit demográfico de jovens brasileiros do sexo masculino se assemelha aos das sociedades em guerra”, disse na ocasião o secretário.

No Brasil morreram e morrem muito mais pessoas através de mortes violentas que em países que estão em constantes conflitos armados, como é o caso da Colômbia e Argélia. (CB)

Potencial para o tráfico

Em comunidades periféricas é importante analisar o estilo de vida das pessoas e, principalmente, tentar resgatar a auto-estima delas. “Trabalhar o lado psicológico do jovem é essencial”, destaca a estudiosa Elismar Santander.

Na favela, o tráfico encontra o berço necessário para proliferar suas ações. São pessoas sem perspectivas de uma vida melhor que se entregam às facilidades que o poder do tráfico pode proporcionar. “O tráfico recruta qualquer pessoa. O nível de escolaridade e conhecimento não é importante. Dá-se valor a bravura e a coragem mostrada pelo jovem”, explica Elismar. Isso é uma vantagem que o crime organizado tem em relação à sociedade organizada.

De acordo com a escritora, o jovem da periferia sente-se excluído da sociedade. “Ele se acha sem cultura e sem dinheiro. A única forma de ser respeitado é através do poder da intimidação e é exatamente o que o crime organizado pode oferecer”, destaca. Na favela, sem a expectativa de crescimento econômico e social, o que prevalece para os jovens é a auto-afirmação através da violência. “Cometer crimes dá respeitabilidade e poder nessas regiões”, diz Santander.

A orientação sistemática de jovens e crianças e a inclusão deles em processos sociais e educativos é a saída para conter o avanço da criminalidade no país. “A escola tem tratado do assunto muito superficialmente. É preciso preparar o cidadão do futuro, através do resgate de valores e de reflexão crítica”, finaliza.

O livro ainda dispõe, na íntegra, a Lei Antitóxicos e o Estatuto da Criança e do Adolescente.