O julgamento mais esperado do caso Rafael Zanella, que deveria acontecer na próxima segunda-feira no Tribunal do Júri, foi adiado. O delegado Maurício Bittencourt Fowler, tido como mentor da armação para encobrir um erro policial, que resultou na morte do estudante, em 1997, conseguiu através de seu defensor, Arnaldo Busato Filho, uma liminar para que o julgamento não seja realizado, alegando que o Tribunal do Júri não tem competência para julgar o caso e que a sentença deve ser dada por um juiz da Vara Criminal.

Com a manobra, o julgamento do delegado foi adiado pela sétima vez. Tiago Zanella, irmão do estudante, explicou que o defensor de Maurício vem tentando “empurrar” o júri pois, se o processo completar oito anos, os crimes prescreverão e o réu estará livre.

A liminar deverá levar algumas semanas para ser julgada. “Caso a Justiça decida negar o recurso, demorará mais um tempo para que o caso entre novamente na pauta do Tribunal. É tudo o que o delegado quer”, lamentou Tiago.

Crime

A tese da defesa é a de que Maurício, delegado de plantão no 12.º Distrito Policial, na noite do crime, chegou à delegacia depois que seus subordinados já estavam com todas as provas forjadas.

Mas, os depoimentos dos demais envolvidos revelam que foi o delegado quem determinou a cada um o que fazer para encobrir o erro da equipe. Naquela noite de 28 de maio de 1997, depois de matarem Rafael com um tiro na cabeça, os policiais colocaram maconha no porta-malas do carro dele e com uma arma ilegal, atiraram contra a viatura.

Em seguida colocaram o revólver na calça de Rafael. Ainda prenderam os três amigos do jovem e os torturaram na delegacia, para que não contassem a verdade.

Protesto

Diante do adiamento do júri de Maurício Fowler, familiares e amigos do estudante Rafael Zanella farão um protesto na segunda-feira pela manhã, às 9h em frente ao Tribunal do Júri.

“Queremos mostrar nossa insatisfação com mais essa manobra. Queremos sensibilizar as autoridades judiciais para que o caso não caia no esquecimento e que o júri ocorra antes de os crimes prescreverem”, alertou Tiago Zanella, irmão do estudante morto.

O que vale pra “uns” não vale pra “outro”

O escrivão da Polícia Civil Carlos Henrique Dias foi condenado a 11 anos e 12 dias de prisão e a perda de seu cargo público, pelo Tribunal do Júri de Curitiba, na noite de anteontem.

Carlos é um dos nove envolvidos na morte de Rafael Zanella, vítima de uma desastrosa ação policial. A sentença, proferida pela juíza Flávia da Costa Viana, foi dada após os jurados considerarem Carlos culpado pelos crimes de fraude, tortura e denunciação caluniosa.

O defensor de Carlos, Antônio Henrique do Amaral Rabello de Mello, tentou convencer os jurados que, no dia do crime, o escrivão não participou da farsa. Chegou depois dos fatos na delegacia e fez a documentação do inquérito.

Tomou o depoimento dos colegas policiais, sem saber que estavam mentindo. Mesmo assim, Carlos foi considerado culpado. A defesa já adiantou que irá recorrer da sentença.

Enquanto isso, Carlos poderá aguardar em liberdade. Antes dele, na segunda-feira, o superintendente Daniel Luiz Santiago Cortes, foi condenado a 12 anos e 10 meses de prisão, pelas mesmas acusações, mas também recorrerá em liberdade.

A mãe de Rafael, Elisabetha Zanella, chorou quando o promotor Marcelo Balzer citou a conclusão das investigações da Corregedoria da Polícia Civil, da época, absolvendo o escrivão.

Um trecho do documento também deixou claro que, se Rafael fosse filho de uma família menos abastada, o caso teria sido considerado pela Corregedoria como mero “acidente de trabalho” e a farsa dos policiais não teria sido descoberta.