Celina e Beatriz depuseram ontem.
Ambas choraram diante do juiz.

O julgamento de três réus do caso Evandro – Osvaldo Marcineiro, Vicente de Paula Ferreira e Davi dos Santos Soares – poderá ser encerrado hoje à noite, após os debates entre acusação e defesa no Tribunal do Júri de Curitiba. A sessão de ontem – quinto dia de júri – foi marcada pela presença de Beatriz e Celina Abagge, mãe e filha que, em meio a crises nervosas e lágrimas, prestaram depoimento no final da tarde, como testemunhas de defesa dos réus. Durante os breves depoimentos, que duraram pouco mais de meia hora, a promotoria não se manifestou. Acusadas de serem as mandantes do crime, elas negaram a participação no assassinato do garoto Evandro Ramos Caetano e sustentaram em todo o depoimento que sofreram torturas praticadas or policiais, na época em que foram presas e acusadas.

As testemunhas mais esperadas por quem está acompanhando os trabalhos, mãe e filha foram ouvidas separadamente. Ambas tiveram o direito de permanecer caladas e negarem-se a responder as perguntas, já que são co-réus dos três homens em julgamento.

Beatriz Abagge foi a primeira a ser ouvida. Ela confessou que freqüentava a casa de Osvaldo Marcineiro e que encomendou um trabalho a ele, já que ao jogar búzios, o pai-de-santo lhe disse que a serralheria de seu pai, Aldo Abagge, não caminhava bem financeiramente. Ela alegou que a oratória construída na serralheria e que supostamente teria abrigado as vísceras de Evandro, foi usada apenas para abrigar uma vela e evitar um incêndio no local.

Chorando bastante, Beatriz afirmou ainda ter sido seqüestrada por policiais, que disseram ser da inquisição e que iriam queimar as bruxas. Ela contou ainda que, ao ser levada para uma chácara, depois de presa, foi estuprada e obrigada a confessar o crime. “Com os olhos tampados ouvi gritos e a voz de Osvaldo que me pediu para dizer que eu tinha matado o garoto, porque ele não agüentava mais apanhar”, disse Beatriz. O depoimento dela encerrou-se com as perguntas feitas pelos advogados de defesa, já que a promotoria não quis questioná-la.

Mãe

No depoimento de Celina Abagge, ouvida em seguida, ela disse que jamais freqüentou a casa de Osvaldo Marcineiro e que não apoiava a ida da filha à casa do pai-de-santo. Dizendo ser extremamente católica, Celina afirmou que nunca acreditou nos búzios, que jamais participou de qualquer ritual e que na noite em que o garoto teria sido executado ela estava em casa cuidado dos filhos adotivos de Beatriz. Quanto às torturas, Celina contou que reconheceu o local onde foi agredida como sendo a chácara do pai de Diógenes Ramos Caetano dos Santos Filho, o qual ela viu às gargalhadas quando foi presa. O depoimento dela acabou quando o advogado Álvaro Borges Júnior mencionou o nome do coronel Valdir Coppeti Neves, investigador na época, e ela retrucou: “Não quero nem ouvir falar deste nome. Ele foi o chefe das torturas”.

Família se diz revoltada com depoimentos

Os depoimento de Celina e Beatriz Abagge foram também presenciados pela família do garoto Evandro Ramos Caetano. Os parentes do menino manifestaram descaso pelo depoimento delas. Em um determinado trecho, Celina Abagge disse que a única vez que viu o garoto foi quando ele estava na garupa da bicicleta com o pai, Ademir Batista Caetano, o qual ela conhecia por ser funcionário da Prefeitura. “Uma vez eles passaram em frente à minha casa, eu os cumprimentei e elogiei Ademir pelo filho bonito que tinha. Depois disso, nunca mais vi o menino”. Indignada, a tia de Evandro, Dalvina Ramos, afirmou: “Quando ela viu Evandro, já estava escolhendo quem iriam sacrificar, pois o que eles queriam era justamente uma criança clara, bonita e principalmente, que fosse amada. Para mim, o depoimento delas não significa nada”.