Foto: Aliocha Maurício/Tribuna
Nem a câmera intimida o traficante.

A denúncia do escancarado tráfico de drogas no Largo da Ordem, Centro Histórico de Curitiba, feita pela Tribuna na edição de sábado, parece não ter intimidado os traficantes e muito menos mobilizado a polícia. Ontem, a equipe voltou à praça em frente a igreja do Rosário e, mesmo tendo sido vista pelos traficantes – mais uma vez registrou o tráfico de drogas no local, sem que os vendedores e compradores do tóxico mudassem a sua rotina. Durante as duas horas e quinze minutos em que a reportagem esteve ali, nenhuma viatura policial sequer passou pela região.

A matéria divulgada no sábado mostrou ?Marquinhos?, preso na sexta-feira e depois liberado, e a namorada dele ?Thais?, traficando na região. Eles não apareceram ontem na praça, mas o ?ponto? não parou de funcionar. Dessa vez, o traficante era uma rapaz moreno, magro, que vestia camiseta cinza e bermuda azul escura ou preta.

Às 14h30 o sol estava alto e várias pessoas passeavam pelo Centro Histórico. Enquanto turistas tiravam fotos do chafariz conhecido popularmente como ?cavalo babão?, alguns homens deitavam ou sentavam no gramado do Relógio das Flores, porém nenhum traficante havia chegado na praça. Uma hora depois, a reação de algumas pessoas indicava que a venda de crack estava para começar. O traficante então chegou e sentou-se embaixo de uma árvore, junto com uma garota que estava com o braço engessado e usava um boné amarelo. Ela seria sua comparsa.

O casal ficou algum tempo ali, até um jovem que estava sentado perto do chafariz ir até eles e comprar uma pedra. A dupla então caminhou até o lado da igreja e, debaixo da marquise de uma panificadora, deu início ao comércio ilícito.

Em poucos minutos o traficante vendeu várias pedras de crack, aos olhos dos fregueses da panificadora e de quem passava por ali.

Geralmente os usuários chegam discretos na praça, ficam parados do outro lado da rua e por fim vão até o traficante. A venda dura segundos, mas a procura é tanta que fica fácil identificar o ?dono da droga.? Em outras situações o ?cliente? fica um pouco distante e aguarda até o traficante levantar. Este coloca a mão no bolso, tira a pedra de crack e se encontra com o usuário. A transação também dura segundos. Depois disso o traficante volta para debaixo da marquise e aguarda o próximo comprador. Em meia hora pelo menos cinco usuários compraram pedras, alguns visivelmente alterados pela abstinência do crack. As roupas usadas por alguns ?compradores? evidenciavam que o vício atinge todas as classe sociais. Em alguns momentos o movimento era tanto que um aglomerado de usuários rodeavam o traficante. Quando iniciou a chuva todos ficaram embaixo da marquise, sem se preocupar se estavam sendo vistos ou não.