Com o bando, telefones, computadores
e outros equipamentos foram apreendidos.

Uma quadrilha internacional, que montou um sofisticado sistema de fraude de ligações via telefone celular, foi desbaratada pelo Centro de Operações Policiais Especiais (Cope). Três brasileiros, um vietnamita e um libanês, com documentação brasileira, foram presos sob acusação de fazer parte do esquema encabeçado por uma empresa norte-americana, que lesava clientes e operadoras de telefonia móvel. Segundo a polícia paranaense, o grupo era responsável por 70% dos casos de clonagem feitas em aparelhos de operadoras nacionais.

As investigações começaram há três meses, através de uma denúncia feita pela TIM Sul, braço da operadora italiana no Paraná e Santa Catarina. A empresa desconfiou do alto número de ligações nacionais e internacionais, fora da rotina dos clientes. Pouco a pouco, o Cope descobriu um sistema complexo, montado por técnicos com alto grau de conhecimento, e que tinha por objetivo baratear as ligações através de telefones clonados no Brasil. Cerca de 35 policiais e três delegados participaram da investigação.

Radares

O ponto de partida é a clonagem das linhas de telefones pós-pagos (de conta). Para tanto, o grupo instalou uma espécie de “radar” perto do Aeroporto Internacional de São Paulo, que captava e copiava eletronicamente a linhas de qualquer pessoa que deixasse seu aparelho ligado. Cerca de 200 mil números de celulares clonados estavam na memória dos computadores apreendidos em poder da quadrilha, prontos para serem usados e assim lesar as vítimas desavisadas.

William Wadith Zakhour, 47 anos, líder do grupo preso pelo Cope; Mariana Ferreira Cardoso da Silva, 25, que seria sua amante; o irmão dela, Abrahão Correia da Silva Filho, 32; Rosa Soares de Oliveira Gomes, e o vietnamita Tran Van Quang,k eram “contratados” de uma pequena operadora, de propriedade de canadenses e instalada legalmente nos Estados Unidos, que inclusive dispunha de ações em bolsas de valores americanas. A função dos detidos era conectar as linhas clonadas no Brasil à esta companhia, através de quatro centrais telefônicas montadas em prédios de luxo no centro de Campinas (SP).

Hi-tech

Protegida pela aparente idoneidade, a empresa americana era procurada por outras operadoras de todo o mundo, normalmente de boa-fé. Através de um sistema montado com equipamentos de última geração de informática, ligados a uma rede de linhas telefônicas fixas (uma espécie de PABX de alta tecnologia), as centrais de Campinas transportavam uma ligação normal efetuada em outros cantos do planeta aos telefones clonados no Brasil. Cento e quarenta aparelhos celulares, previamente adulterados por técnicos dos Estados Unidos para receber estas ligações, também eram usados pelos fraudadores.

Assim, uma ligação feita da Austrália para a Alemanha passava pela companhia do país de origem, ia até a operadora dos Estados Unidos, era desviada ilegalmente para a central de Campinas e então transferida ao destino final por um telefone clonado. Quem recebia a ligação via um número estranho (que era do Brasil) no identificador de chamadas, mas normalmente não dava importância.

Incalculável

O lucro obtido pela operadora norte-americana era enorme, uma vez que era ela que cobrava pelo serviço prestado às outras empresas, mas não gastava nada – o preço das ligações era pago pelos usuários comuns que tiveram suas linhas clonadas. As operadoras brasileiras, por sua vez, ficavam com o prejuízo quando eram solicitadas a ressarcir os clientes que tiveram os números copiados. E operadoras de todo o mundo sofriam com a concorrência desleal dos americanos, que ofereciam serviço a preço abaixo do mercado, justamente por efetuá-lo de forma criminosa. “É impossível calcular o lucro que obtiveram. São milhões e milhões de dólares, em vários anos de atividade”, disse o delegado titular do Cope, Marcus Vinícius Michelotto, que coordenou o trabalho. O delegado afirma que o sistema é tão complexo que nem mesmo as operadoras brasileiras descobriram todos os detalhes de seu funcionamento. CDs, disquetes, computadores, aparelhos adquiridos nos Estados Unidos, os 140 telefones celulares, documentos e os demais equipamentos apreendidos em poder do grupo serão periciados pela Polícia Civil paranaense, que apresentou o resultado da investigação com muita pompa. “A clonagem de telefones celulares no Brasil vai zerar”, espera o delegado.

Até a máfia russa está na complicada história

Enquanto encerra a fase brasileira das investigações, o Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) entrega o caso da quadrilha de clonagem de celulares à polícia americana. O FBI – a polícia federal dos norte-americanos -, será responsável pela prisão dos principais cabeças do esquema. “Temos o endereço e os telefones da empresa. Certamente ela será devassada”, falou o delegado titular do Cope, Marcus Vinícius Michelotto, que disse não saber o nome da companhia.

O Cope acredita que a quadrilha seja ligada às máfias russa e vietnamita e tenha conexões com Argentina, Bolívia, Polônia, Cazaquistão, Líbano e Kuwait – o preso Tran Quang seria o responsável pelos contatos com os países do leste europeu. Também haveria uma ligação, mesmo que indireta, com o narcotráfico. “Em todo o mundo, o crime organizado só usa celulares clonados”, disse Michelotto.

Willian Zakhour, apontado com líder do grupo, recebia uma remessa semanal de US$ 8 mil (cerca de R$ 23 mil) dos Estados Unidos, suposto pagamento pela atividade ilícita. Ele tem documentos brasileiros indicando que nasceu no Espírito Santo e em São José dos Pinhais, e diz ser descendente de libaneses, mas a polícia desconfia que tenha nascido no país asiático – já que se expressa bem somente em árabe. Abrahão e Mariana também teriam recebido remessas em dinheiro do exterior, segundo a polícia.

O suposto chefe do bando já respondeu processo na Bolívia e foi condenado a seis anos de detenção num processo movido pela Polícia Federal brasileira, mas fugiu da cadeia de Guarapuava. O inquérito é pelo mesmo crime – desenvolver clandestinamente atividade de telecomunicação. A pena varia de dois a quatro anos de reclusão, podendo ser aumentada se houver dano a terceiros.