Dois delegados recém-formados pela Academia da Polícia Civil assumiram, na tarde de ontem, a delegacia do Alto Maracanã, que permaneceu fechada pela manhã, depois da prisão de dez policiais civis acusados de participar de um esquema de recebimento de propinas, principalmente de traficantes de droga.

A Secretaria da Segurança Pública (Sesp) informou que oito investigadores e um escrivão foram designados para atuar na delegacia e se juntar à equipe remanescente.

O desafio de comandar uma delegacia desacreditada, cheia de problemas, com excesso de inquéritos e ainda muitos presos num xadrez inadequado, coube ao delegado Rafael Ferreira Vianna, de apenas 26 anos, que foi o 1.º colocado na escola de polícia.

Ao lado dele, como adjunto, foi nomeado o delegado André Dall Soglio Coelho. Ambos foram apresentados na própria delegacia, ontem, pelo delegado geral Jorge Azor Pinto; pelo geral adjunto, Francisco José da Costa, e pelo chefe da Divisão Metropolitana, Jorge Ferreira.

Mais do que desejar sorte, a cúpula da Polícia Civil deverá dar instrumentos para que os dois delegados novatos possam cumprir com suas obrigações. Apesar das visíveis dificuldades, Rafael afirmou estar preparado para assumir o cargo. “Eu tive o treinamento necessário durante os cinco meses de curso e dois de estágios em delegacias.”

Aliocha Maurício
Da ex- delegada Márcia, só restou a placa com seu nome em cima da mesa.

Limpeza

A ação que resultou nas prisões foi desencadeada pelo Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, e pela Corregedoria da Polícia Civil.

Foram detidos e estão com prisão temporária de 5 dias decretada, a ex-delegada titular Márcia Rejane Vieira Marcondes e o marido dela, o escrivão José Antônio Braga, que exercia o cargo de superintendente, mais dois escrivães e sete investigadores, bem como dois advogados, um funcionário da prefeitura e um agente de apoio.

Mais quatro suspeitos permanecem foragidos, num total de 20 envolvidos diretamente com os crimes, segundo a polícia. Os golpes rendiam de R$ 2 mil a R$ 30 mil, de acordo com levantamentos do Gaeco.

A movimentação no dia seguinte às prisões foi tranquila na delegacia, que ficou temporariamente sob os cuidados do delegado Hamilton da Paz, que é titular da delegacia central de Colombo.

Porém, os presos aproveitaram a confusão e iniciaram uma nova tentativa de fuga, abrindo um buraco em uma das celas. Uma vistoria feita pelos policiais militares que faziam a segurança localizou o buraco, que deveria se transformar em um túnel. Com isso, 10 dos 28 reclusos foram transferidos para o Centro de Triagem II, em Piraquara.

Gaeco tem muito trabalho

Fábio Schatzmann 

O promotor Leonir Batisti, coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, disse hoje que os promotores estão reunidos para colocar em ordem a série de denúncias que devem ser apresentadas contra as 16 pessoas presas, entre elas dez policiais da delegacia de Alto Maracanã. Quatro acusados ainda estão foragidos.

Cinco casos, denunciados pelas famílias de presos extorquidos, já foram formalmente confirmados. Porém, falta analisar grande parte do material apreendido nas casas dos policiais e na sede da delegacia, onde trabalhava o grupo.

Em princípio, destacou o promotor, o caso se encerra com o grupo arrolado, não havendo outros envolvidos. Não há previsão se será pedida prisão preventiva, antes de oferecerem denúncia à Justiça, nem o prazo em que a farão. Todos responderão por concussão (extors&ati,lde;o cometida por funcionário público), corrupção passiva e formação de quadrilha.

O grupo extorquia dinheiro de traficantes para não prendê-los, não arrolá-los em processos ou ligar a outros inquéritos. Quando ocorria a prisão, relaxavam na elaboração do inquérito, para facilitar os trabalhos dos advogados em colocá-los em liberdade. O grupo cobrava entre R$ 2 mil e R$ 30 mil. Mas em um caso chegaram a cobrar R$ 50 mil.

Advogados voltaram a procurar o Gaeco ontem para informar que seus clientes devem se apresentar nos próximos dias. Estão foragidos Carlos Alberto Feijó, Fabiano Alves da Silva, Cássio Antônio dos Santos e um sujeito conhecido somente por Renato, cujo grau de envolvimento na quadrilha ainda está sendo apurado.

Mordomia cancelada

Janaina Monteiro

Clodomiro Alves Ferreira, 59, era o preso de confiança do ex-superintendente Braga e prestava serviços ao policial como um”secretário particular”. Era visto limpando os vidros de salas e até indo à padaria.

Também auxiliava na construção da casa que o superintendente e a esposa estavam fazendo perto da delegacia. Com a confusão de terça-feira, ele perdeu a regalia.