Reprodução OrkutA guerra entre as duas gangues da Vila Torres chegou também na internet. Adolescentes com armas em punho e exibindo o que conseguiram roubar, como dinheiro e garrafas de uísque, estão em vários perfis e comunidades do site de relacionamento Orkut. O que se percebe é uma disputa de poder que vai bem além da realidade.

As fotos estão expostas em comunidades como ?Fãs dos mano do capanema? e ?Parte de cima sem pilantragem? -pertencente à ?gangue de cima?. Imagens como as do cantor de reggae Bob Marley, do terrorista Osama Bin Laden, de apologia à maconha e armas de vários calibres, também são mostradas pelos moradores da favela.

Provocações

Nos comentários, membros das duas gangues se provocam, todos de forma anônima, mostrando que a audácia também tem limite. O termo ?Vida Loka? aparece em vários perfis, como se definisse a ideologia do grupo: fumar maconha, beber, traficar, matar e roubar. Garotas, que aparentam não ter mais que 16 anos, fazem parte dos bandos.

O que chama a atenção é que, em meio a tanta violência exibida na internet, os mesmos marginais também mostram sua fragilidade e falta de estudo. É comum dizerem que seus livros preferidos são os gibis da Turma da Mônica e que entre seus programas de televisão prediletos estão o do Chaves e o desenho do Tom e Jerry.

Pelas fotos percebe-se que os membros dos dois grupos são adolescentes que tentam mostrar o quanto são perigosos, mas que ao mesmo tempo têm medo de revelar o rosto e de assinar as ameaças. É certo que eles são os responsáveis por muitas mortes na Vila Torres, mas dizer que são grupos fortemente armados e que têm tanto poder quanto facções criminosas é exagero. Há quem diga, inclusive, que as armas exibidas são de brinquedo.

Pra parecer grande

Reprodução Orkut

Sem estudo, garotos imitam adultos.

De acordo com o professor da Universidade Federal do Paraná Pedro Bodê que coordena grupos de estudo da violência, exibições como as do orkut sãos comuns, principalmente quando envolve adolescentes que estão na fase da construção da identidade e do caráter. ?Eles querem aparecer. Copiam referenciais de adultos para mostrar que têm poder. Muitas vezes é muito mais fantasia que realidade?, conta ele.

O tenente Sérgio, comandante da 5.ª Companhia do 12.º Batalhão de Polícia Militar, concorda que a guerra entre as duas gangues é mais psicológica que verdadeira. Segundo ele, os bandos disputam pontos de tráficos de drogas, cometem pequenos assaltos na região, também são responsáveis por crimes, mas não são tão imbatíveis e perigosos quanto parecem. ?São adolescentes que vivem em briga. Eles atiram uns nos outros, mas ao mesmo tempo têm medo. Mesmo assim sabemos que a Vila Torres é uma região delicada. Mas a população tem que saber que é a polícia que detém o controle da situação?, afirmou.

Big Brother na favela

A partir do início do mês vai ser difícil passar pelas ruas da Vila Torres sem ser percebido. Câmeras de monitoramento que alcançam até seis quilômetros irão mostrar à polícia quem são os usuários e os traficantes da região. O projeto foi revelado ontem, com exclusividade o Paraná-Online.

Em parceria com a iniciativa privada, os equipamentos serão colocados em pontos estratégicos. As câmeras vão monitorar toda a região, com possibilidade de visão em vários ângulos. ?A partir de fevereiro quem entrar lá estará na nossa lente?, disse o tenente Sérgio, comandante da 5.º Companhia do 12.º BPM.

De acordo com o policial, o objetivo é coibir, principalmente, a entrada de usuários na favela, que são os maiores responsáveis por manter a ?economia do tráfico?. Essas pessoas entram a pé ou de carro e ficam paradas nas ruas. São as crianças que apanham o dinheiro, levam até o traficante, pegam o entorpecente e entregam. ?Com as câmeras será possível flagrar o rosto dos usuários ou a placa dos carros. Conseguiremos identificar os traficantes e levar mais segurança para as pessoas de bem que moram ali?, finalizou o comandante.