Dezesseis pessoas, entre policiais militares, civis e uma mulher, estão formalmente denunciadas pela série de mortes em Almirante Tamandaré, ocorridas nos últimos três anos. Ontem, o Ministério Público entregou a denúncia, com 22 páginas, à juíza Luciane R. C. Ludovico. Na denúncia, assinada por cinco promotores, constam depoimentos de 48 testemunhas, como resultado de quatro inquéritos policiais. Todos os denunciados estão presos temporariamente. A juíza tem até amanhã para decidir pela prisão preventiva dos dezesseis acusados – caso saia a preventiva, os acusados poderiam ficar detidos até serem julgados.

Três dos quatro inquéritos foram concluídos na semana passada, cinco meses depois de a delegada Vanessa Alice iniciar as investigações em torno do assassinato de dezenove mulheres e cinco homens. O trabalho da Polícia Civil apontou a existência de uma quadrilha organizada, liderada por policiais militares, que domina o tráfico de drogas na região de Tamandaré, Itaperuçu e Rio Branco do Sul.

Homicídios

Na denúncia, sete homicídios são atribuídos à quadrilha, que executa pessoas ligadas ao tráfico como “queima de arquivo”. Dois integrantes estão denunciados por coação de testemunhas. Vários outros casos de assassinatos de homens são também atribuídos ao grupo, restando apenas a confirmação dos autores das mortes.

Entre as mulheres mortas, há ex-amantes de policiais militares e prostitutas envolvidas na venda de cocaína em boates. Consta na denúncia o assassinato de quatro jovens, ocorrido em junho de 2000. Um dos rapazes mortos tinha ligação com a quadrilha, e os outros três foram executados porque testemunharam a morte do amigo.

Carbonizado

Também foi atribuída à quadrilha a morte bárbara de Carlins Proença da Rosa, vulgo “Sílvio”, assassinado em fevereiro deste ano. “Sílvio”, que tinha participação no tráfico, foi dominado pelos assassinos, obrigado a engolir gasolina, baleado e colocado dentro de seu próprio veículo. Em seguida, os criminosos atearam fogo.

As mortes de Maria da Luz Alves dos Santos, a “Maria Jibóia”, e Joyce Katolick Devitte, de acordo com as investigações, foram de responsabilidade da quadrilha. Os autores seriam o PM Juarez Silvestre Vieira e Alceu Rodrigues, o “B.A” – também assassinado em maio deste ano. As duas mulheres foram mantidas em um quartinho, dentro da lanchonete Parada Obrigatória, e torturadas antes de serem mortas.

Impunidade

Tendo policiais militares como líderes, o bando agiu impunemente durante três anos – inclusive participando de atendimentos nos próprios locais de crime e dificultando o trabalho de policiais não envolvidos no esquema. Integrantes da quadrilha trabalhavam dentro da delegacia de Tamandaré, impedindo flagrantes relacionados aos crimes, sonegando informações, coagindo testemunhas e induzindo depoimentos. Por conta das investigações comandadas pela delegada Vanessa Alice, o secretário José Tavares, da Segurança Pública, determinou o afastamento do delegado Rogério Haisi, que vinha investigando a série de morte de mulheres como se fosse obra de um maníaco sexual. Tavares disse que o delegado foi “omisso” no caso.

Consta, ainda, na denúncia do MP, o fato de que integrantes da quadrilha foram designados para executar a delegada Vanessa. Entre outras barbáries, ela descobriu que os criminosos mantinham os cadáveres das mulheres ocultos em uma chácara durante algum tempo, para eliminar pistas. Depois, já putrefatos, os corpos eram desovados em matagais para serem encontrados.

A quadrilha arregimentava pessoas com histórico de delitos. Quando tinham desavenças com o grupo, elas eram eliminadas.

A autoria direta de outros homicídios de mulheres atribuídos ao grupo não foram abrangidos na denúncia porque ainda resta a apuração do executor das outras mortes.

Alguns homicídios de mulheres foram praticados por pessoas sem relação com a quadrilha, como os de Cleuza Aparecida Ferreira, Vanessa Ekert e Terezinha Elizabeth Kepp. Há outros inquéritos em andamento que apontam suspeitos, não estando ainda comprovado o relacionamento com a quadrilha.

Denunciados

As pessoas denunciadas são os policiais militares Juliano Vidal de Oliveira, Jean Adan Grott, Juarez Silvestre Vieira, Jeferson Martins, José Aparecido de Souza e Marcos Marcelo Sobieck, Leily Pereira, o policial civil Alexandre Perin Pimenta, escrivão de polícia lotado na delegacia de Tamandaré; Luiz Antônio Alves da Silva, funcionário público que atuava como assistente de segurança da mesma delegacia; Sebastião Alves do Prado, comerciante; Celso Luiz Moreira, vulgo “Celso Seco”, motorista; Paulo Celso Rodrigues, vulgo “Celsinho”; Maria Rosana de Oliveira, dona da lanchonete Parada Obrigatória, de Itaperuçu; Antônio Martins Vidal, vulgo “Tico Pompílio”, segurança e motorista da Prefeitura de Tamandaré; Valdírio Adir Mangger, ex-policial militar, excluído por questões disciplinares, e André Luiz dos Santos, o “Andrezinho”.