Marcelo estaria devendo
dinheiro para traficante.

O sinal já havia sido tocado quando Marcelo Cristiano de Souza, 15 anos, chegou ao Colégio Estadual Humberto de Alencar Castelo Branco, na Rua Piratini, Jardim Weissópolis, em Pinhais. Eram 19h05 e o estudante não pôde entrar pelo portão – ele poderia assistir à segunda aula, às 19h35, mas teria preferido ficar do lado de fora. Por volta das 21h30, o garoto foi atacado por outros três menores e executado com dois tiros. Colegas e familiares estavam desconsolados e não encontravam motivos para o crime. Mas a polícia agiu rápido e apreendeu, ontem pela manhã, um dos adolescentes envolvidos no assassinato. A partir daí, o motivo veio à tona: tráfico de drogas.

Tiros

Cerca de 15 minutos antes, os soldados Clodoaldo, Bertuzzi e Emerson, da Patrulha Escolar Comunitária, do 17.º Batalhão da Polícia Militar, tinham passado em frente ao colégio, que é um dos maiores em número de alunos da cidade. Segundo Clodoaldo, a equipe dispersou alguns jovens que se aglomeravam próximo da entrada da escola e continuou a ronda pelos outros oito estabelecimentos de ensino sob sua responsabilidade.

Dezenas de estudantes comentaram, no local, que Marcelo foi atacado por um grupo de sete indivíduos, que seriam ex-alunos da instituição. Antes de ser assassinado com um tiro na cabeça e outro na barriga, Marcelo discutiu com os autores e foi agredido. Em seguida, o grupo de delinqüentes saiu calmamente pela rua, alguns em bicicletas. "Todo dia eles estão por aqui, "apavorando’ quem está estudando", relatou uma garota, que não quis se identificar.

O tenente Angelotti, responsável pela Patrulha Escolar Comunitária na Região Metropolitana, conversou com a direção do colégio. Segundo relatado a ele, Marcelo realmente estaria em horário de aula quando foi assassinado. "O garoto não era o que se chama de um aluno exemplar, mas tampouco tinha histórico de delinqüência", comentou o tenente. Na mesma escola, pais e professores se reuniram em outubro de 2003 para debater o problema da violência entre gangues.

Drogas

O delegado Gerson Machado, da delegacia de Pinhais, informou que A.F.B., 15 anos, que foi apreendido por policiais militares na manhã de ontem, contou que o motivo da execução foi uma dívida de drogas. "O menor disse que Marcelo pegou droga para vender de um traficante e se apropriou do dinheiro. O detido e seus colegas – L.S.A., 15, e F.L., 16 -, receberam a incumbência de assassinar o rapaz", salientou Machado, que já solicitou à Justiça que determine a apreensão dos outros dois jovens.

O delegado apurou que quem atirou foi o menor de 16 anos, que ainda está de posse da arma. "O garoto apreendido contou ainda que, antes de atirar, F. disse: "O Marcelo gosta de dar tiro nos outros. Chegou a vez dele’. Depois efetuou os disparos", relatou o policial.

Garotos são "usados" pelo crime organizado

As penas brandas aplicadas em adolescentes favorecem o envolvimento de menores de 18 anos com o crime, especialmente nos casos de homicídios. Como um menor de idade fica apreendido no máximo por três anos – a condenação ao completar a maioridade pode chegar até 30 anos de reclusão em regime fechado -, o tráfico usa menores para executar rivais e devedores, além de aproveitá-los como "mulas" (transportam drogas) e "aviões" (pequenos traficantes). "A questão é que o menor sabe da benevolência da lei", comentou o delegado Gerson Machado.

O dinheiro fácil e rápido adquirido com o crime, também favorece o ingresso dos adolescentes neste tipo de vida. "No último fim de semana apreendemos um garoto de 17 anos com 108 pedras de crack. Ele contou que estava vendendo cada pedra por R$ 5,00. Seu lucro por dia gira em torno de R$ 100,00 a R$ 200,00. Onde que ele vai ganhar isto trabalhando?", comentou o delegado Gerson Machado.

De acordo com o delegado é comum a apreensão de menores, mas geralmente eles não permanecem muito tempo recolhidos por força da Lei, já que quando pratica um crime o menor responde de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Outro problema apontado pelo delegado é que nos municípios onde não há políticas voltadas ao jovem, o envolvimento deles com a criminalidade é bem maior.