Roupas, bebidas e livros de magia
foram apreendidos na casa de João.

Acusado de ser responsável por inúmeras barbaridades cometidas contra jovens, o sargento aposentado da Polícia Militar, João Antônio Gonçalves, 53 anos, que se passava por pai de santo, foi preso na tarde de ontem por investigadores da Central de Polícia. A prisão ocorreu através de mandado expedido pela Justiça. As acusações contra ele são de estupro, cárcere privado, torturas físicas e psicológicas e ameaças.

As investigações que resultaram na prisão do aposentado começaram logo após a chefe da Defensoria Pública do Estado, Silvia Cristina Xavier, tomar conhecimento de denúncias contra ele, no último dia 2 de julho. Segundo Silvia, uma jovem de 22 anos a procurou, juntamente com a mãe, relatando os maus tratos que havia recebido durante aproximadamente quatro meses em que conviveu com João Antônio. “A jovem estava machucada, com costelas quebradas e ferimentos na face. Ela contou sobre os maus tratos sofridos e que era impedida de sair da casa e procurar familiares. Constantemente era ameaçada”, disse Silvia.

Ameaças

Diante de tais fatos, a Defensoria Pública tomou providências visando a segurança pessoal da vítima. Foi solicitado inclusive um mandado de busca e apreensão dos objetos da jovem na casa do policial aposentado. De acordo com Silvia, desde que descobriu que suas “atividades” chegaram ao conhecimento da Defensoria, o acusado começou a mandar mensagens ameaçadoras para ela e sua assistente.

A advogada, então, solicitou auxílio ao delegado Luiz Alberto Cartaxo de Moura, da Central de Polícia (Cepol), que colocou seus investigadores para trabalhar no caso. Foram levantados os antecedentes criminais do acusado e descoberto que ele responde a sete inquéritos. As investigações continuaram até ontem ,quando os policiais receberam os mandados de busca e apreensão e de prisão preventiva e foram cumpri-los.

Prisão

Os investigadores montaram uma campana em frente a casa do sargento, na Rua Alfredo Otto, Vila Uberlândia, Novo Mundo, para apanhá-lo. Por volta das 15h tiveram a confirmação de que João estava em casa e iniciaram a operação. O aposentado foi preso quando foi atender a porta”.

Durante uma revista na casa foram apreendidos materiais utilizados pelo aposentado quando se fazia passar por pai de santo. Vestimentas, livros, bebidas, bengala e agendas. Além disso, vários papéis e cartões de empresas de prestação de serviços com o endereço da casa, o que pode indicar que no local funcionavam outros “empreendimentos” de João. Segundo os policias que fizeram a busca, o local deveria ser interditado pela saúde pública, devido a falta de higiene. Uma grande sala seria uma espécie de “terreiro”, segundo os investigadores. Em vários papéis espalhados pela casa foram encontrados o nome da advogada Silvia e seu telefone, o que comprovam as ligações ameaçadoras.

Embriagadas, vítimas sofriam estupros em rituais

Os atos de violência atribuídos ao preso João Antônio, praticados contra suas vítimas – geralmente jovens entre 15 e 22 anos -, chegam a enojar quem deles toma conhecimento. Segundo Silvia, há relatos monstruosos. “Ele embriagava as jovens e cometia as atrocidades”, disse a advogada. Ele é acusado de violentá-las sexualmente usando uma bengala; urinar na boca das garotas e caso não suportassem, ele as espancava. “Tem o relato de que uma menina não conseguiu e vomitou. Ele a obrigou a comer o próprio vômito”, informou a advogada. De acordo com Silvia, ele age assim desde 1996.

O superintendente Gumiero, da Central de Policia (Cepol), informou que, em conversa com o detido, ele confessou friamente ter praticado as atrocidades. “Admitiu. Mas disse que fazia porque as vítimas gostavam”, contou o policial. As barbáries eram cometidas quando o aposentado dizia incorporar as entidades que eram conhecidas por “Zé Pelintra” e “Tranca Rua”.

“Trabalhos”

O detido tinha um discurso bem articulado para convencer as vítimas a ficar com ele. Segundo o policial, normalmente o “pai de santo” era procurado pelas jovens para resolver problemas amorosos. Ele iniciava o “trabalho” e com o tempo ganhava a confiança da cliente. Depois a convencia a ficar com ele a mantinha em cárcere privado. Seus relacionamentos duravam entre quatro e cinco meses. Durante o período as vítimas passavam por todas as humilhações relatadas.

“Ele sempre dizia às vítimas que o que fazia era parte do “trabalho” para que o pedido feito pelas clientes fosse atendido”, contou Gumiero.

A advogada chefe da Defensoria afirmou que maioria das vítimas nem tinham consciência do que faziam pois permaneciam dopadas ou completamente embriagadas pelo acusado. “Quando caiam em si, elas fugiam”, completou o policial.

João Antônio vai ficar preso na Cepol e depois deve ser transferido para o Centro de Triagem. Gumiero informou que serão reabertos todos os sete inquéritos contra o aposentado. Com a divulgação da foto do acusado existe a possibilidade dele ser identificado por outras vítimas que deverão entrar em contato com a Cepol ou 1.º Distrito Policial.