Em junho de 2001 a facção criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC mostrou sua cara ao Paraná. Naquele ano, José Márcio Felício, o “Geléia”, estava à frente do grupo e foi o responsável pela rebelião mais longa do Estado.

O motim durou seis dias e terminou na morte de um agente penitenciário e três detentos. Até então, imaginava-se que a atuação do PCC não ultrapassava a fronteira dos presídios paulistas. Hoje, apesar do governo paranaense negar, sabe-se que as cadeias do Estado tornaram-se “campos de treinamento” da facção criminosa.

Membros do PCC estão espalhados por todos os presídios paranaenses, arregimentando homens capazes de dilacerar o próprio corpo pela facção. Em sua maioria são jovens, viciados em drogas, que encontram nos chefes do PCC o “porto seguro” e a falsa ilusão do poder.

Tatuar no corpo “1533” (PCC de acordo com a ordem das letras no alfabeto) é motivo de orgulho. Em entrevista ao Paraná-Online, três ex-presidiários, que cumpriram penas nas décadas de 80, 90 e 2000 contaram como agem os membros da facção criminosa.

Experiência

Segundo eles, na década de 80 as brigas e rivalidades não saíam para fora dos muros dos presídios. Quem comandava a cadeia eram os bandidos envolvidos com roubo a bancos e seqüestros. Em meados dos anos 90s, o PCC começou a se instalar no Paraná.

Hoje, bandidos experientes não entram para a facção criminosa. Já os que aceitam integrar a facção, passam por um crivo. Em uma das celas lhe é passado o estatuto da facção.

Depois de entrar para o grupo, ele tem que prestar serviços dentro da cadeia, como ser o responsável por esconder celular no ânus e matar, quando a ordem é decretada. Os chefes não “sujam as mãos”. Fora da cadeia eles devem cumprir as mesma ordens.

Tortura

Um dos ex-presidiários contou que, certa um vez, um jovem fugiu da cadeia, com a ajuda do PCC. Sua missão era vender uma determinada quantia de drogas, mas, em vez disso, consumiu cada grama de crack.

Ao ser preso novamente, foi levado pelo agente carcerário até o departamento da faxina, onde estão os mais poderosos da facção no presídio. Ou seja, os chefões do PCC têm livre acesso pelas galerias e também são os responsáveis pelo repasse da comida.

Depois de prestar satisfação aos chefes do grupo, veio a ordem de São Paulo para punir o traidor. Ele foi deixado em uma das celas, onde sofreu a punição conhecida por “pau no gato”, que significa sofrer espancamentos e torturas até chegar perto da morte.

O cara’ sai da carceragem evacuando sangue e é obrigado a não falar nada sobre o que aconteceu. Ele vira troféu, assim como os estupradores. Quando há uma rebelião, são os primeiros a morrer”, contam os ex-presidiários.

Como em um clube, os membros do PCC são obrigados a pagar mensalidade, que no Paraná gira em torno de R$ 100. Parte do dinheiro é usada para comprar armas, celulares e custear advogados. Em São Paulo, este valor chega a ser cinco vezes maior. Entrar para O PCC é escolher pelo caminho que muitas vezes só chega a um destino: a morte.

Saída pela fé religiosa

A morte é praticamente certa para aqueles que ingressam no PCC, mas se há algo que pode salvar os que se arrependem é a fé. A opção pelo desligamento da facção para passar a ser um devoto a Jesus é uma das poucas coisas que os membros do PCC aceitam. Entretanto, se eles percebem que tudo não passa de uma farsa, a sentença de morte é decretada.

Em entrevista ao Paraná-Online, três ex-presidiários, que não eram membros do PCC, contaram que se converteram à religião evangélica. Na cadeia quando um preso sente o que eles chamam de “estalo” e resolve se converter, ele é batizad,o na frente dos companheiros de cela e membros da facção.

A partir desse momento ele está desligado do grupo e não precisa mais prestar qualquer serviço. Entretanto, ele é criteriosamente monitorado. “Se ganha a liberdade e volta a cometer crimes também não é perdoado”, contam os homens que já presenciaram muitas redenções e algumas execuções por conta da mentira envolvendo religião.