O deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho (PSB) estava mesmo embriagado na noite em que se envolveu num acidente automobilístico que matou duas pessoas, em Curitiba.

A confirmação apareceu ontem com uma prova material que deve dar consistência ao inquérito: o resultado do exame de dosagem alcoólica feito no sangue do parlamentar, colhido no Hospital Evangélico, na noite do acidente.

O exame, realizado pelo Instituto Médico-Legal (IML) de Curitiba, apontou que havia 7,8 decigramas de álcool por litro de sangue no material. Praticamente quatro vezes mais do que o nível tolerado, que é 2 decigramas.

Segundo especialistas em trânsito, o crime de excesso de alcoolemia, previsto no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), já se configura com um valor igual ou superior a 6 decigramas por litro de sangue.

O exame de dosagem alcoólica confirma as provas testemunhais, pois várias pessoas ouvidas no inquérito já afirmaram que viram o parlamentar com sinais de embriaguez naquela noite.

O acidente está sendo investigado pela Delegacia de Delitos de Trânsito (Dedetran), mas é acompanhado pelo Ministério Público Estadual (MP) e pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJ), em função de deputados terem foro privilegiado.

O MP aguarda, agora, laudos técnicos que deverão apontar em que velocidade o veículo do deputado estava no momento do acidente, além de exames dos radares por onde ele passou.

Testemunhas também já disseram ao MP que viram Carli Filho passar em alta velocidade pelo local do acidente, ocorrido no dia 7 de maio entre as ruas Ivo Zanlorenzi e Paulo Gorski, no bairro Mossunguê. Uma reconstituição do crime deve ser feita nos próximos dias.

O médico psiquiatra do Hospital de Clínicas de Curitiba (HC), Luiz Renato Carazzai, explicou que 7,8 decigramas de álcool por litro de sangue indicam que o parlamentar bebeu em excesso. E beber dessa forma causa sérios comprometimentos aos reflexos de uma pessoa.

“O álcool atinge o lobo frontal do cérebro. Então a pessoa que bebe tem sua capacidade visual e auditiva diminuídas, além de sua consciência de autocrítica reduzidas e a coordenação motora comprometida”, analisou.

Sobre a possibilidade de um coma alcoólico, o médico explicou que para saber se isso poderia acontecer deve-se analisar toda a condição clínica do paciente, e a análise de dosagem alcoólica é somente uma delas. “Então é difícil dizer se caracterizaria um coma alcoólico”, comentou.

A reportagem de O Estado procurou ontem o promotor que acompanha o caso no MP, Rodrigo Chemim, mas ele não foi localizado durante toda a tarde. A reportagem também entrou em contato com a assessoria do deputado Carli Filho, que informou que fatos ligados ao inquérito só serão comentados pelo advogado da família depois que ele se inteirar do caso.

A assessoria não informou quando isso vai acontecer e nem o nome do advogado. O Hospital Albert Einstein, onde continua internado o deputado depois de ter passado por uma cirurgia de correção de face na última quinta-feira, não divulgou novo boletim médico ontem.

Sem condições de guiar o carro

Arquivo
Carli Filho permanece internado.

Existem diferenças entre a dosagem feita no sangue da pessoa e aquela conseguida pelo bafômetro. Segundo o professor de Direito de Trânsito da UniCuritiba, Marcelo Araújo, 6 decigramas de álcool por litro de sangue são equivalentes a 0,3 miligramas de álcool por litro de ar alveolar.

Sobre a tolerância, o professor diz que a definição causa antagonismo. “Imagine estabelecer um limite de tolerância de, tempo para desobediência ao sinal vermelho.

Significa que, apesar de proibido, dá para desobedecer se for bem rapidinho, logo que fica vermelho. É o mesmo que colocar um radar num cruzamento sinalizado com placa de parada obrigatória, ou mesmo com semáforo em vermelho, e ainda dar tolerância de 7 km/h, mesmo para aqueles que deveriam estar na velocidade zero, parados. Tolerância, nesse caso, somente teria sentido e aplicabilidade para a caracterização do crime”, comentou.

Segundo dados do Sistema Virtual de Bafômetro, concentrações entre 6 e 8 decigramas de álcool por litro de sangue já podem debilitar a memória, causar dificuldades na coordenação e no julgamento.

Para um motorista, o tempo de reação fica alongado, há euforia e os riscos são multiplicados por quatro. Na concentração em 15 miligramas a pessoa sente vertigens, náuseas e sonolência.

No 15, o condutor tem os reflexos alterados e o risco em dirigir aumenta cinco vezes. Quando chega em 30, a pessoa não sabe mais o que acontece ao seu redor e, dos 35 a 40, pode haver inconsciência e até morte.

Cassação de parlamentar só pode sair daqui a dois meses, no mínimo

O presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Nelson Justus (DEM), o corregedor-geral, Luiz Accorsi (PSDB), e o presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, Pedro Ivo (PT), decidiram ontem abrir um processo de sindicância para apurar a possível quebra de decoro parlamentar por parte do deputado Carli Filho (PSB).

Se por acaso a análise do processo for positiva, o deputado poderá ter seu mandato cassado. No entanto, a decisão sobre a cassação sairá em dois meses, no mínimo. Ontem, o parlamentar já foi notificado no Hospital Albert Einstein para apresentar sua defesa em dez dias.

Depois da abertura da sindicância, a Corregedoria faz um parecer prévio do caso. Depois disso, a Corregedoria levanta informações adicionais e, em 30 dias, emite seu parecer.

O caso segue para a Mesa Executiva da Assembleia, que também emite um parecer. Somente depois dos dois pareceres é que o processo vai para o Conselho de Ética, onde poderá ficar por mais 30 dias. Depois da avaliação do Conselho de Ética o caso vai para votação em plenário.

O processo de cassação foi iniciado depois que a família de uma das vítimas fatais do acidente – de Gilmar Rafael Yared – entrou com o pedido na Assembleia na semana passada.

O deputado estadual Plauto Miró (DEM), tio de Carli Filho, fez um pronunciamento ontem, na Assembleia, sobre o acidente. Ele disse que a família do parlamentar passa por um momento de “extrema dor” e que pode imaginar “o que sofrem os pais, mães, parentes e amigos dos envolvidos no episódio”.

Miró falou que gostaria de transmitir sua “sincera manifestação de solidariedade e respeito a todos eles”. Ele disse ainda que “deve reafirmar a fé inabalável na Justiça e também como deputado e cidadão, confiar que as investigações sejam ágeis, eficazes e prontas”.

Hospital

O advogado da família de Yared, Elias Mattar Assad, voltou a criticar ontem o fato de o crime estar sendo tratado como “culposo”, sem a intenção de matar. Ele já sugeriu ao MP que indicie Carli Filho em duplo homicídio com dolo eventual.

Ontem, o advogado também solicitou ao Hospital Evangélico de Curitiba que instaure uma investigação interna para “resgatar cientificamente a verdade dos fatos ocorridos envolvendo o deputado”.

Hoje, o Conselho Regional de Medicina (CRM) deve receber a família Yared para discutir a questão. O Hospital Evangélico foi procurado pela reportagem, mas não deu retorno.