A sensação de enxugar gelo, um sentimento muito próximo da revolta, começou a minar a satisfação do delegado da Polícia Federal Fernando Francischini, sempre que obtinha uma vitória contra o crime organizado, como a prisão do maior traficante do mundo, Juan Carlos Ramírez Abadia. Sempre que caía o grande capo de uma quadrilha, logo outro tomava conta da venda de drogas. A convite do então prefeito Beto Richa, Francischini se tornou o primeiro secretário municipal Antidrogas do País, em 2008. Já no primeiro ano, a secretaria recebeu R$ 1,2 milhão para começar o projeto, valor maior do que o  governo federal aplica na prevenção do uso de drogas. Em 2010 o orçamento já estava em R$ 6 milhões, revelando o comprometimento da Prefeitura de Curitiba. Em entrevista a O Estado, o delegado e postulante a uma vaga na Câmara Federal conta um pouco da sua experiência.

O Estado: Por que optou pelo combate às drogas quando entrou para a Polícia Federal?

Francischini: Há muitos assuntos, como crimes de ordem financeira, fazendária, de ordem política, eleitoral, e a parte mais dura é a de drogas, porque envolve a rua, sangue, tiro, risco de vida pesadíssimo. Estamos lidando com gente como Abadia, Beira-Mar, traficantes, policiais presos, políticos que se envolvem em corrupção e tráfico, como o deputado federal e coronel Hildebrando Paschoal, aquele da moto-serra. Não são muitos os que se dedicam a isso. Tem que ter vocação.

OE: E o motivo dessa escolha?

Francischini: Ver crianças nas drogas é o que mais dói. E sabemos que a droga que chegou à criança passou perto da gente, porque cuidamos de fronteiras, perseguimos grandes traficantes. Isso machuca muito. Com a Secretaria Municipal Antidrogas, desenvolvi mais esse lado de cuidar de crianças. Prevenir e recuperar.

OE: O trabalho de recuperação foi uma decorrência?

Francischini: A primeira opção foi dedicar o trabalho para tirar de circulação esses caras que trazem drogas para os meninos que estão nas ruas. Com o passar do tempo, no final de cada uma dessas grandes operações, ao invés de comemorar, eu começava a ter a sensação de enxugar gelo. É que muito rapidamente ficávamos sabendo que o traficante já havia sido substituído, que estava chegando outro carregamento de droga. Aquela sensação de desconsolo: Mas acabamos de pegar um e já chega outro!

OE: Qual foi sua reação?

Francischini: Comecei a dar palestras na igreja que frequento. Criamos então um projeto de capacitação de lideranças de escolas, das igrejas, que queriam aprender para dar palestras. Já que a droga chega até aquele menino da rua, queríamos evitar que ele pegasse a droga, ensiná-lo a recusar a droga e ensinar o pai, a mãe, professores para que pudessem orientar essa criança.

OE:
A prisão do Abadia e o fato de ser delegado da Polícia Federal são instrumentos para isso?

Francischini: Se estivesse ali um psicólogo, um psiquiatra, um professor, o auditório estaria vazio, infelizmente, tenho certeza. Na média reunimos entre 800 e mil pessoas. A operação do Abadia é um filme. Acho interessante porque o menino vai à palestra porque viu as notícias e quer ver como foi preso, como é que não houve corrupção na última parte. Tenho percebido que os jovens sentem falta de exemplos.

OE:
Você usa as mídias sociais?

Francischini: Criei ferramentas jovens justamente para isso. Estou montando o terceiro perfil no Orkut, porque é uma coisa de menino. Meus filhos me ajudam a responder perguntas, eles acabam se envolvendo, perguntando o que responde aqui, outro pede material…

OE: Os jovens se interessam?

Francischini: Quando falo sobre a profissão de delegado da Polícia Federal, com bom salário, credibilidade e estrutura, percebo que várias cabecinhas que fazem perguntas no final estão sonhando em seguir a profissão.

OE: A sua liberação da Polícia Federal foi obtida com facilidade junto ao Ministério da Justiça?

Francischini:
Num primeiro momento foi. Cheguei a tomar posse, mas o Ministério quis voltar atrás. Aí entrou em campo o ex-governador Paulo Pimentel. Sem que eu soubesse, ele fez ligações para autoridades da República e obteve minha liberação rapidamente. Ele estava muito animado com a criação da secretaria, acreditava que poderíamos fazer a diferença.

OE: Como Curitiba entra nessa história?

Francischini: Eu já conhecia o Beto e depois da operação que prendeu Abadia, ele pediu ao ministro da Justiça para me liberar da Polícia Federal para montar a primeira Secretaria Antidrogas do País. O governo federal tinha uma estatística em que Curitiba aparece como a sétima capital brasileira em homicídios dolosos. Então o prefeito queria um projeto que no fundo era o meu trabalho, dentro das escolas, das igrejas, capacitação de lideranças comunitárias…

OE: As prisões são importantes, mas como você diz, não vão acabar com o tráfico.

Francischini: Quando o prefeito me chamou e falou dos dados sobre homicídios em Curitiba, estava muito preocupado, mas segurança é atribuição do governo do Estado e do governo federal. Ele me deu dois exemplos que mexiam com ele: andando pelos bairros, uma mãe o pegou pelo braço, contou que a filha é dependente química e foi na escola que conheceu o crack. E o prefeito me perguntou: O que respondo para ela? O mesmo quando um pai conta ter visto o filho morrer na escada de casa, executado por traficantes. É fácil dizer que a atribuição não é do município, mas o que se diz a um pai que o aborda na rua, desesperado?

OE:
Nasceu então a Secretaria Antidrogas?

Francischini: Começamos a estudar e mapear os crimes na cidade. Em março de 2008, descobrimos que, em pelo menos 70% dos crimes, quem morreu ou quem matou tinha relação com drogas. A droga estava sempre por trás.

OE: Estava ali o problema a enfrentar.

Francischini:
O foco era a droga. E como diminuir a droga? A quatro mãos, Beto e eu escolhemos os projetos. Lembro das palavras dele: educação, conscientização e prevenção nas escolas. Queríamos chegar a todos os alunos da rede municipal, que beiram os cem mil, a maioria até a quarta série. E implantamos projetos de prevenção, alguns em parceria com a Polícia Federal, como o Papo Legal. Num segundo momento, vimos que era preciso criar vagas gratuitas em entidades de recuperação química de drogas. Quando abordamos crianças de rua dependentes do crack e a levamos ao pai, ele diz que não tem dinheiro para pagar pela recuperação do filho. Para 2010, temos R$ 1 milhão no orçamento para enfrentar esse problema.

OE: O que você achou do plano de combate ao crack lançado pelo governo federal?

Francischini: O plano é bom, mas não traz nada de diferente do que fizemos na Secretaria Antidrogas nesses dois últimos anos.

OE: Qual é o orçamento da secretaria?

Francischini: Em dois anos, passou de R$ 1,2 milhão para R$ 6 milhões. A secretaria saiu de duas salas para 1,8 mil metros quadrados em quatro andares de um prédio; saiu de nove assessores para 78 funcionários.

OE:
Muitos municípios já se interessaram pela secretaria?

Francischini: Tivemos de criar um projeto para atender à demanda de municípios que queriam um trabalho igual. Quase 20 cidades já criaram ou estão criando a secretaria.

OE: Você já obteve resultados concretos com a atuação da sec,retaria?

Francischini:
Se uma criança recebe bem a informação de que não pode nem experimentar o crack, que esta droga não é como a maconha, porque a maconha ainda tem volta, já valeu a pena. Quando deixei a secretaria, em março de 2010, estávamos atingindo quase sete mil crianças por mês.

OE: Mas a criança não é muito receptiva quando já esteve envolvida com drogas?

Francischini: Aí vem a segunda parte, que é a recuperação. A prevenção pretende atingir 96% das crianças, porque elas nunca tiveram contato com drogas. E os 4% que já tiveram o primeiro contato, se foi com crack, precisam de recuperação; se foi com outra droga mais leve, podem ser acompanhados com orientação.