Foto: Alberto Melnechuky
Grupo Amor Exigente se reúne
toda segunda-feira, em Curitiba.

Mães de diferentes classes sociais. Donas-de-casa, empresárias, professoras. Mulheres que não se conheciam, mas que cruzaram suas vidas pelo mesmo drama. Tiveram os filhos roubados pelo vício das drogas. O sofrimento que desestrutura qualquer família é compartilhado todas as noites de segunda-feira em uma casa discreta, no Alto da XV, em Curitiba. É ali que acontece uma das reuniões do Amor Exigente, um grupo de apoio que não tem como objetivo ensinar os pais a livrar os filhos das drogas, mas a enfrentar o problema. Nas reuniões, as pessoas são encorajadas a agir em vez de só falar; desestimuladas a usar violência ou agressividade e levadas a construir uma relação de cooperação com toda a família.

A reunião, que acontece na casa das freiras da Congregação Copiosa Redenção, começa às 20h. Aos poucos, familiares dos dependentes, na maioria mães, chegam e ocupam seus lugares. O clima é de união e de alegria, apesar do motivo que os reúne ali.

Quem coordena a reunião é o padre Emerson, que há dez anos trabalha com dependentes de substâncias químicas em casas de recuperação. Na primeira meia hora todos cantam uma música de boas-vindas para os que vão ao grupo pela primeira vez. Eles discutem sobre um dos doze princípios do Amor Exigente. Na segunda parte do encontro os participantes são divididos em grupos e acontece o que eles chamam de ?partilha?. São experiências trocadas e um apoio mútuo de quem vive o mesmo pesadelo. ?Aqui nós ensinamos aos familiares que eles precisam se cuidar. Mostramos às mães que elas têm o direito de dormir enquanto o filho está nas ruas usando drogas. Um doente não consegue ajudar outro doente. Por isso, mães e pais devem ter uma estrutura psicológica forte para a enfrentar o problema?, explica o padre.

Descoberta

Quando os pais descobrem que o filho está usando drogas, o drama paira na família e começa o jogo de culpas. Maridos acusam as mulheres, principalmente as que não trabalham, por não terem ficado atentas à rotina dos filhos. Elas os acusam de serem pais ausentes. Segundo o padre Emerson, a mãe é geralmente mais protetora e o pai mais severo. Com essas diferenças, é comum casamentos acabarem quando as drogas entram em casa. ?A culpa não é de um ou de outro. O que ocorreu foi uma falta de limites mútua. Na criação dos filhos, os pais precisam saber que é preciso ter autoridade e não autoritarismo. Os filhos são manipuladores e por isso devem ser colocados em seu devido lugar, sem inverter os papéis. Eles têm que saber que é necessário respeitar e seguir as regras impostas pelo pai e pela mãe?, ressalta o sacerdote.

Serviço: Para saber mais sobre o grupo Amor Exigente, acesse o site www.amorexigente.org.br ou entre em contato pelo telefone 9185-8621.

Batalha pela vida

A dona de casa Elizabete Balchak engravidou aos 40 anos. Passou os últimos três meses de gestação internada, porque corria o risco de perder o bebê. Hoje, aos 63, a mãe guerreira luta mais vez para manter o filho vivo. Agora a briga é contra o crack. Bruno é usuário há cinco anos.

Aos 18, o jovem experimentou a maconha. Depois veio o crack e o consumo frenético da droga. ?Quando descobri, meu chão caiu?, conta Elisabete, ao lado do filho, hoje com 25 anos.

Bruno está sem consumir a pedra há cerca de sete meses. ?Minha luta é diária, pois a vontade não vai embora e por isso cada dia sem usar é uma vitória?, diz ele.

Nas reuniões do Amor Exigente, o jovem faz questão de estar sempre ao lado da mãe, de abraçá-la e beijá-la. Ele não tem vergonha de declarar o amor que sente. Afinal, foi Elisabete quem enfrentou traficantes e entrou várias vezes na favela durante a madrugada. ?Perdi as contas de quantas vezes os traficantes me ligavam para que eu fosse levar o dinheiro para pagar a droga que meu filho tinha acabado de consumir. Quando chegava em casa, eles ligavam novamente dizendo que Bruno tinha fumado mais. Cheguei a ir quatro vezes na favela na mesma madrugada, sem conseguir trazer meu filho pra casa?, relembra a mãe.

Bruno lembra com tristeza desta fase. ?Era horrível. Eu ficava só de calção, porque já tinha trocado toda minha roupa por crack. De dentro da casa do traficante, fumando crack, olhava minha mãe passar pela rua atrás de mim?, conta ele.

Elizabete lembra que passava noites ajoelhada em frente ao telefone esperando que os criminosos ligassem para ela pedindo dinheiro. Era o sinal que filho estava vivo. ?Para mim, minha mãe é tudo. Ninguém, nem mesmo meu pai, seria capaz de fazer tudo isso por mim?, afirma Bruno. A mãe retribui o carinho. ?Por ele eu faço qualquer coisa. É o amor da minha vida?. (PC)