Um documento conseguido com exclusividade pela Tribuna mostra que a direção da Penitenciária Industrial de Guarapuava (PIG) já estava ciente, desde 10 de março, de que atentados poderiam ocorrer contra agentes penitenciários de unidades prisionais da cidade, como o que ocorreu domingo (15) e levou à morte do agente Marcelo Fernando Pinheiro, 31 anos.

No entanto, diz a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), o documento não foi levado adiante e o governo estadual não ficou sabendo da ameaça. Pelo contrário, o documento foi deletado do sistema do Departamento de Execução Penal (Depen), que só teve conhecimento do conteúdo ontem porque localizou uma cópia impressa, feita antes da deleção do arquivo digital.

Marcelo estava na sala de descanso do plantão, quando marginais violaram uma cerca do Centro de Regime Semiaberto de Guarapuava (Crag), invadiram o prédio e executaram o agente. Há informações de que havia outros dois agentes na mesma sala, mas que foram poupados.

Os tiros foram apenas direcionados a Marcelo, o que leva a polícia, até o momento, a acreditar numa execução direcionada ao funcionário, e não em um arrebatamento de presos, como se cogitou inicialmente. Depois do crime, os bandidos voltaram por onde saíram e fugiram num carro.

Foram presos Eliton José de Almeida, 22 anos, Jefferson Santos Alves, 23, Osvaldo Maíra dos Santos, o “Quadrado”, 25, José Ezequiel Almeida dos Santos, 25, e Jesibel dos Santos Castilho, autuados em flagrante por homicídio qualificado e associação criminosa.

Documento

A informação de que agentes penitenciários estavam marcados para morrer partiu de um preso da PIG, que procurou funcionários e contou o que sabia. Ele assinou o termo de declaração, dando nomes de agentes que estariam na lista de morte, e dos presos que estariam responsáveis pelas execuções. Boa parte dos presos, esclareceu uma fonte à Tribuna, já foram transferidos da PIG ou estão em liberdade.

Nesta terça-feira (17) à noite, a Sesp se pronunciou sobre o documento, afirmando que ele existe, porém que o conteúdo dele não é verídico. “O documento mostrado na reportagem foi elaborado dentro da unidade prisional e não foi repassado à direção ou a outros setores do Governo do Estado, ficando para investigação interna, muito embora as informações ali relatadas não procedam, uma vez que praticamente todos os presos citados na lista não se encontrem mais naquele estabelecimento. Hoje (ontem), o Departamento de Execução Penal (Depen) solicitou cópia desse documento e descobriu-se que o mesmo havia sido deletado. Por esse motivo, será aberto um procedimento administrativo para apurar responsabilidades.”, diz a nota.

Recebeu sim

Ao contrário do que alegou o governo, de que o documento sequer foi repassado adiante, o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários (Sindarspen), Antony Johnson, diz que a declaração foi sim entregue pelo Depen ao governo do Paraná. “E nada foi feito para resolver a situação, tanto que acabou por cumprimento da promessa dos presos”, lamentou.

O nome de Marcelo Fernando Pinheiro não estava na lista dos ameaçados ou jurados de morte, mas de acordo com Johnson, a intenção dos presos era matar qualquer um dos agentes penitenciários. “Eles nos mostraram que iriam matar quem estivesse na frente deles e agora precisamos urgente que alguém tome uma atitude com relação a isso”, exigiu o sindicalista.

Investigações rápidas

Segundo a Secretaria de Estado da Segurnaça Pública (Sesp), a delegada Tany do Amarante Razera está conduzindo as investigações com muita agilidade e o esclarecimento do crime pode ocorrer em breve. Jeferson é apontado como autor dos disparos e Jesibel teve a participação comprovada atrav&eacute,;s de mensagens encontradas no celular dela.

“O Jeferson teve a ajuda dos outros envolvidos, que o levaram até o Centro de Regime Semiaberto de Guarapuava (Crag)”, disse a delegada, que ontem já tinha um inquérito de 500 páginas, com dezenas de oitivas. Os depoimentos vêm sendo acompanhados, desde segunda-feira, por uma representante da Vara de Execuções Penais (VEP).

Os cerca de 50 agentes penitenciários pararam suas atividades. (Foto: Antony Johnson/Sindarspen)

Greve e protestos

Os cerca de 50 agentes penitenciários do Centro de Regime Semiaberto de Guarapuava (Crag) pararam as atividades e os presos, que poderiam sair durante o dia para trabalhar, ficaram fechados. Os detidos tiveram apenas o direito de alimentação. Os agentes prometem que não voltam às atividades enquanto a Secretaria da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp) não tomar atitudes que resolvam o problema que enfrentam por lá.

Na manhã de ontem (17), cerca de 150 agentes saíram pelas ruas de Guarapuava em protesto para pedir atenção da Sesp. “Nós precisamos que três medidas imediatas e de urgência sejam tomadas, são elas: presença da Polícia Militar 24 horas no presídio, contratação de mais agentes penitenciários e a construção de um muro para garantir nossa segurança”, disse Antony Johnson, presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários (Sindarspen).

Ele ainda revelou que conversas com a Vara de Execuções Penais (VEP) já estão avançadas e que devem ser ajudados com o encaminhamento dos pedidos para o governador. “Mas o que precisamos é que alguém faça o que pedimos, porque se não mais agentes vão morrer.”

O secretário da Segurança Pública, Fernando Francischini, que lamentou a morte do agente, já tinha comentado sobre a segurança no sistema penitenciário, em entrevista coletiva concedida segunda-feira. Ele disse que o que aconteceu em Guarapuava é um reflexo do que tem acontecido no Brasil inteiro.

“Mas com a recuperação do poder de investimento, nos próximos meses, vamos fazer reformas no sistema penitenciário que possam diminuir cada vez mais a questão da insegurança do trabalho e as falhas dos sistemas de segurança”, explicou Francischini. Ainda não há resposta para os pedidos imediatos dos agentes penitenciários do Crag.